um poema político
(para Vitor Ferreira)

em tese, todo poema é político, ainda que hesite
eternamente entre som e sentido, como dizia
valéry, e que se construa com palavras e não com
ideias, como indicou mallarmé, mas a fala é em
si uma forma de política, e mesmo o primeiro
balbucio infantil pode ser, em certo sentido,
um primeiro passo para o político, para a
habitação da cidade, mas o poema não pode
escapar à política, a se posicionar politicamente,
a ser uma posição da cidade, a uma forma de
ver a cidade, uma forma de habitar a cidade,
mesmo que não traga mais do que rosas e
o azul do céu, mesmo que fale de insetos
ou gaviões, ou de urubus, ou de bem-te-vis, ou
de corujas, ou dos gritos dos bugios, ou da
sexualidade bonobos, um poema não deixa de ser
político mesmo sendo pornográfico, repleto
de cus, bucetas e caralhos, mesmo quando
seja apenas a descrição fotográfica de um instante,
de um casal, numa manhã chuvosa de domingo,
ambos vestidos com uma camiseta verde-e-amarela
do flamengo, uma camiseta comemorativa e não
a camiseta oficial do time, rubro-negra, uma
camiseta feita por marqueteiros, pela nike,
para ser ofertada a celebridades, para captar
recursos para o time, para dar determinada
identidade ao time, para que o time possa
vender bastante essa camiseta, não para que
essa camiseta represente as cores do time, mas
para que o time seja um produto vendável nas
lojas, nos shoppings centers, e esse casal, assim
vestido, possa descer numa manhã de domingo,
com seu cachorrinho, um lulu da pomerânia, ou
spitz alemão anão, e seus dois filhos fofos num
carrinho de bebês para gêmeos, empurrado por
uma babá negra, devidamente uniformizada, ela
também, devidamente paga, devidamente posta
em seu lugar, já que o chefe de família, o marido
vestido com a camiseta que deveria ser rubro-negra,
mas que foi produzida pela nike nas cores verde-e-
amarela, esse marido é também vice-presidente
de finanças desse time popular, o flamengo,
além de empregar centenas de pessoas em
seu trabalho, além assinar a carteira de todos
os seus funcionários, exemplarmente, segundo
ele próprio, então essa imagem é a construção
de uma identidade política, é uma forma, exemplar,
segundo o próprio marido, de habitar a cidade
do rio de janeiro, ele de mãos dadas com a
esposa, puxando um lulu da pomerânia, pagando
seus impostos corretamente, vestindo seu tênis
nike, sua camiseta nike verde-e-amarela com
o brasão do flamengo, descendo numa manhã
de domingo para protestar contra a corrupção,
já que ele paga seus impostos, e paga a babá negra
devidamente uniformizada que empurra o carrinho
de bebês, mas que está livre para pedir demissão,
segundo ele, ela está livre nessa manhã de domingo,
em meio ao protesto no qual as demais pessoas
que ali protestam se aproveitam para beber
uma tacinha de champagne, ou para encenar
o enforcamento de um sujeito branco, mas com
o black-face, vestido com um saco de lixo, com uma
corda em torno do pescoço e sendo empunhado
como um estandarte por um outro sujeito, risonho,
vestido com uma camiseta também da nike, mas dessa
vez da cbf, e também enrolado numa bandeira
do brasil, ordem e progresso, podemos ler apesar
de as letras estarem invertidas, esse enforcamento
de um negro indigente então funcionando como
um estandarte, como um abre-alas, uma bandeira
simbólica do protesto para alcançar um país melhor,
no qual os empresários possam continuar a passear
e protestar numa manhã de domingo, de mãos dadas
com a esposa, passeando o lulu da pomerânia e tendo
seus filhos fofos conduzidos por uma babá negra
devidamente paga e uniformizada, livre para deixar
o emprego, livre para estar em meio a esse protesto
com taças de champagne e enforcamento de negros
indigentes, livre, livre, como o marido é livre para
se pronunciar posteriormente, já em seu apartamento,
informando ao mundo que ela é uma funcionária
livre para deixar o emprego, que ele ganha honestamente
a vida, que paga seus impostos e, por isso, é
um cidadão exemplar, e que ela, a babá da foto,
não a outra babá, ou as outras babás, ela trabalha
apenas no fim-de-semana, e não a babá ou as babás
que trabalham durante a semana, e que devem ser
também devidamente pagas, mas que por alguma
razão não puderam, ela ou elas, comparecer
ao protesto, por estarem livres para ficar em casa,
assim como ele é livre para se defender em seu
perfil do facebook, explicando como é honesto
e cumpridor dos seus deveres, repudiando o
ódio e dizendo que está feliz em poder gerar
empregos, entre estes certamente o da babá
negra que ele levou para o protesto, para que
ele pudesse estar mais confortável para dar a
mão à sua esposa e passear o lulu da pomerânia
sem ter de empurrar seus filhos fofos no
carrinho de bebê para gêmeos, que ele está
feliz por participar da construção de um país
melhor, seguindo o lema de nossa bandeira,
ordem e progresso, feliz por trazer a esperança
de um novo país, e por isso ele se defende
no facebook, curiosamente iniciando o texto
no qual se defende, no qual defende o fato de ter
levado uma babá negra para o protesto, para
não ter de empurrar o carrinho de gêmeos com
seus filhos fofos, e assim poder passear o lulu
da pomerânia e dar a mão à sua esposa, curiosamente
ele inicia seu texto com a expressão sí passarán!,
sim passarão!, invertendo o lema da luta contra
o fascismo, invertendo o lema antifascista, os
fascistas não passarão, mas para o empresário
sim, passarão, o protesto passará e que nesse país
que ele está ajudando a construir se possa
descer para a rua numa manhã de domingo
vestindo a camisa da nike e seu tênis nike,
de mãos dadas com a esposa, passeando seu
lulu da pomerânia, com os filhos fofos sendo
empurrados num carrinho de bebê para gêmeos
por uma babá negra devidamente uniformizada

 

© Caio Meira

 

Compartilhamentos [© Caio Meira]
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *