LANDSCHAFTEN FÜR EIN EKG

Meu poema "Paisagens para um eletrocardiograma", do livro "No oco da mão", traduzido para o Alemão por Carlos Abbenseth e Sieglinde Fiedler, aos quais agradeço imensamente.


LANDSCHAFTEN FÜR EIN EKG

 

Zwischen Rippen und Lunge, unter
dem Einfluss von Mond und Gezeiten
weht ein leichter Wind

Von den Gipfeln, von den Hügeln, gezeichnet
auf Millimeterpapier, stürzen drei Seufzer
hinab ins warme Badewasser

In der Brust, ein Wanderer

Kaum verlässt er die Heimat, mit
der Flöte im Rucksack und Malpinseln in der Linken
schon vergisst er, in der Biegung
oben am Berg, das Buch
mit näheren Ausführungen
zu Herzklappenfehlern

(übersetzt von Sieglinde Fiedler und Carlos Abbenseth, 28.9.2017)

 

Paisagens para um eletrocardiograma

 

Entre as costelas e o pulmão, sob
influência da lua e da maré
sopra uma brisa

Dos picos, dos morros desenhados
no papel quadriculado, três suspiros
se precipitam na água quente do banho

Dentro do peito, um peregrino

Ele mal deixa o país natal, com
a flauta na mochila e pincéis na mão esquerda
para se esquecer, na curva
da encosta subindo a montanha,
do livro que explica detalhes
das anomalias da vávula mitral

 

Um poema político

um poema político
(para Vitor Ferreira)

em tese, todo poema é político, ainda que hesite
eternamente entre som e sentido, como dizia
valéry, e que se construa com palavras e não com
ideias, como indicou mallarmé, mas a fala é em
si uma forma de política, e mesmo o primeiro
balbucio infantil pode ser, em certo sentido,
um primeiro passo para o político, para a
habitação da cidade, mas o poema não pode
escapar à política, a se posicionar politicamente,
a ser uma posição da cidade, a uma forma de
ver a cidade, uma forma de habitar a cidade,
mesmo que não traga mais do que rosas e
o azul do céu, mesmo que fale de insetos
ou gaviões, ou de urubus, ou de bem-te-vis, ou
de corujas, ou dos gritos dos bugios, ou da
sexualidade bonobos, um poema não deixa de ser
político mesmo sendo pornográfico, repleto
de cus, bucetas e caralhos, mesmo quando
seja apenas a descrição fotográfica de um instante,
de um casal, numa manhã chuvosa de domingo,
ambos vestidos com uma camiseta verde-e-amarela
do flamengo, uma camiseta comemorativa e não
a camiseta oficial do time, rubro-negra, uma
camiseta feita por marqueteiros, pela nike,
para ser ofertada a celebridades, para captar
recursos para o time, para dar determinada
identidade ao time, para que o time possa
vender bastante essa camiseta, não para que
essa camiseta represente as cores do time, mas
para que o time seja um produto vendável nas
lojas, nos shoppings centers, e esse casal, assim
vestido, possa descer numa manhã de domingo,
com seu cachorrinho, um lulu da pomerânia, ou
spitz alemão anão, e seus dois filhos fofos num
carrinho de bebês para gêmeos, empurrado por
uma babá negra, devidamente uniformizada, ela
também, devidamente paga, devidamente posta
em seu lugar, já que o chefe de família, o marido
vestido com a camiseta que deveria ser rubro-negra,
mas que foi produzida pela nike nas cores verde-e-
amarela, esse marido é também vice-presidente
de finanças desse time popular, o flamengo,
além de empregar centenas de pessoas em
seu trabalho, além assinar a carteira de todos
os seus funcionários, exemplarmente, segundo
ele próprio, então essa imagem é a construção
de uma identidade política, é uma forma, exemplar,
segundo o próprio marido, de habitar a cidade
do rio de janeiro, ele de mãos dadas com a
esposa, puxando um lulu da pomerânia, pagando
seus impostos corretamente, vestindo seu tênis
nike, sua camiseta nike verde-e-amarela com
o brasão do flamengo, descendo numa manhã
de domingo para protestar contra a corrupção,
já que ele paga seus impostos, e paga a babá negra
devidamente uniformizada que empurra o carrinho
de bebês, mas que está livre para pedir demissão,
segundo ele, ela está livre nessa manhã de domingo,
em meio ao protesto no qual as demais pessoas
que ali protestam se aproveitam para beber
uma tacinha de champagne, ou para encenar
o enforcamento de um sujeito branco, mas com
o black-face, vestido com um saco de lixo, com uma
corda em torno do pescoço e sendo empunhado
como um estandarte por um outro sujeito, risonho,
vestido com uma camiseta também da nike, mas dessa
vez da cbf, e também enrolado numa bandeira
do brasil, ordem e progresso, podemos ler apesar
de as letras estarem invertidas, esse enforcamento
de um negro indigente então funcionando como
um estandarte, como um abre-alas, uma bandeira
simbólica do protesto para alcançar um país melhor,
no qual os empresários possam continuar a passear
e protestar numa manhã de domingo, de mãos dadas
com a esposa, passeando o lulu da pomerânia e tendo
seus filhos fofos conduzidos por uma babá negra
devidamente paga e uniformizada, livre para deixar
o emprego, livre para estar em meio a esse protesto
com taças de champagne e enforcamento de negros
indigentes, livre, livre, como o marido é livre para
se pronunciar posteriormente, já em seu apartamento,
informando ao mundo que ela é uma funcionária
livre para deixar o emprego, que ele ganha honestamente
a vida, que paga seus impostos e, por isso, é
um cidadão exemplar, e que ela, a babá da foto,
não a outra babá, ou as outras babás, ela trabalha
apenas no fim-de-semana, e não a babá ou as babás
que trabalham durante a semana, e que devem ser
também devidamente pagas, mas que por alguma
razão não puderam, ela ou elas, comparecer
ao protesto, por estarem livres para ficar em casa,
assim como ele é livre para se defender em seu
perfil do facebook, explicando como é honesto
e cumpridor dos seus deveres, repudiando o
ódio e dizendo que está feliz em poder gerar
empregos, entre estes certamente o da babá
negra que ele levou para o protesto, para que
ele pudesse estar mais confortável para dar a
mão à sua esposa e passear o lulu da pomerânia
sem ter de empurrar seus filhos fofos no
carrinho de bebê para gêmeos, que ele está
feliz por participar da construção de um país
melhor, seguindo o lema de nossa bandeira,
ordem e progresso, feliz por trazer a esperança
de um novo país, e por isso ele se defende
no facebook, curiosamente iniciando o texto
no qual se defende, no qual defende o fato de ter
levado uma babá negra para o protesto, para
não ter de empurrar o carrinho de gêmeos com
seus filhos fofos, e assim poder passear o lulu
da pomerânia e dar a mão à sua esposa, curiosamente
ele inicia seu texto com a expressão sí passarán!,
sim passarão!, invertendo o lema da luta contra
o fascismo, invertendo o lema antifascista, os
fascistas não passarão, mas para o empresário
sim, passarão, o protesto passará e que nesse país
que ele está ajudando a construir se possa
descer para a rua numa manhã de domingo
vestindo a camisa da nike e seu tênis nike,
de mãos dadas com a esposa, passeando seu
lulu da pomerânia, com os filhos fofos sendo
empurrados num carrinho de bebê para gêmeos
por uma babá negra devidamente uniformizada

 

© Caio Meira

 

Essa gente que desce hoje para a rua

essa gente que desce hoje para a rua

é possível encontrar entre essa gente que desce hoje
para a rua, como desceram por 49 vezes de março
a junho de 64, como desceram empunhando o
estandarte carmim com o leão dourado para
protestar contra o divórcio, contra a reforma
agrária, contra o aborto, contra a ameaça do
comunismo, contra a corrupção dos valores da
família e da propriedade, em defesa da família, em
defesa da propriedade

como nos anos 50 desceram os que achavam que
o getúlio não podia ser candidato, se candidato não
podia ser eleito, se eleito não podia ser empossado,
se empossado era preciso ser impedido de governar

entre essa gente é possível encontrar aqueles que não
são eles mesmo corruptos, aqueles que não pagam
propina, que não fraudam o imposto de renda, que
não estacionam em fila dupla, que não são
funcionários-fantasma, que não se beneficiam de
alguma forma de nepotismo

é possível encontrar entre eles os que não se incomodam
que porteiros e domésticas ascendam socialmente, os
que não se opõem a que gays, lésbicas, trans e inters
tenham direitos civis, os que não tenham obsessão
por armas de fogo

entre essa gente que desce para a rua hoje, nesse dia
chuvoso, podemos encontrar os que não tenham como
ídolos o steve Jobs, o bill gates ou o trump, os que não
tenham como paradigma o lobão e o roger, os que
não ignoram que as famílias marinho, frias, mesquita
e civita formam um consórcio criminoso, os que não se
miram no eike batista ou no lemann, os que não
acham que juízes são deuses, os que não tenham
como meta levar os filhos para passear na disney,
os que não se ressentem com o fato de que pobre
agora possa pegar avião

podemos encontrar entre essa gente os que não estão
com sangue nos olhos, os que não veem graça no
danilo gentille, os que não acham o luciano huck
um cara bacana, os que não repercutem nas redes
sociais os textos do constantino, do azevedo, do
mainardi, os que não são olavetes, os que não
compartilham vídeos e expressões do bolsonaro,
do malafaia, do feliciano, os que não publicam
na sua timeline a reportagem de 1975 do amaral
neto, o repórter, elogiando a ditadura militar

é possível encontrar aqueles que, em 1888, não
se oporiam ao fim da escravidão, e que hoje
não perpetuam a escravidão em suas formas
veladas e escancaradas, aqueles que se chocam
com o fato de a mulher do cunha não ter sido
ainda presa, que se chocam também que
o episódio do helicóptero do pó tenha
desaparecido da mídia sem sofrer qualquer
tipo de investigação

creio ser possível encontrar quem não esteja a
serviço direto ou indireto da bancada da bala,
da bancada do boi, da bancada da bíblia, quem
não queira entregar o controle do país ao
congresso mais conservador e hipócrita da
história do país

enfim, é possível encontrar entre essa gente os
que descem para a rua apenas por amor, não
por ódio, ou por revanchismo, ou por desconsiderar
as regras do jogo

mas é bom levar uma lanterna

 

Resenha para O Passeador, de Luciana Hidalgo

Terminei há alguns dias, com enorme atraso, a leitura de O Passeador, da Luciana Hidalgo.

Fui um dos primeiros a comprar o livro, em sua versão digital. O atraso gigantesco, de cerca de 4 anos, se deu sobretudo porque nos últimos tempos andei tomado e encantado por tudo o que gira em torno da fotografia, da imagem. Nesse período, negligenciei não apenas as minhas leituras (incluindo aí os livros lançados por amigos), mas também minha própria escrita. Esse sentimento de dívida se agravava para mim pelo fato de eu e Luciana Hidalgo termos ganhado, no mesmo ano, o prêmio a Bolsa Funarte para Criação Literária, em 2011, Luciana pelo Passeador (que também foi finalista do Jabuti de 2012) e eu pelo Romance, que publiquei em 2013.

Mas estou de volta! Então, aqui vão minhas impressões de O Passeador.

Mademoiselle Hidalgo, em seu primeiro romance, leva para o registro da ficção a matéria que por anos tratou como pesquisadora, a literatura urgente (e a vida) de Lima Barreto. Para qualquer criador, saber muito sobre alguma coisa apode apresentar toda uma série de riscos. Um deles, por exemplo, seria o de encontrar um espaço para dar à imaginação, à criação, em especial considerando que o personagem ficcional de fato existiu, publicou livros, foi alvo de biografias e estudos. Se os fatos mais prementes da vida de Lima Barreto são conhecidos, tais como o alcoolismo, a loucura e o preconceito de que foi vítima, qual é o espaço possível de ficcionalização? Aqui, Luciana diz a que veio. O Passeador não busca, a meu ver, ao contrário que poderia parecer, produzir fatos ficcionais explicativos da vida de Lima, um completar de lacunas ou o preenchimento de vazios subjetivos que viriam dar de seus motivos maiores. Trata-se, bem mais, da dedicada reconstrução de uma época, de uma sociedade e de uma cultura, tal como configuradas na cidade do Rio de Janeiro no início do séc. XX. A escrita de Luciana não segue em linha reta, acrescentando fatos aos fatos, sejam estes ou aqueles imaginários ou reais. Como acontece com um passeador real, ela prefere construir com delicada firmeza a atmosfera de um tempo, seus personagens, suas ruas, um momento histórico preciso da vida do país.

Nesse sentido, os capítulos, mais do que se sucederem uns aos outros, vão se posicionando espacialmente, em favor da recriação paulatina do universo em que passeou, viveu, amou e sofreu não apenas Lima, mas muitos dos seus contemporâneos: Sofia, uma co-protagonista, mas também um tipo de alterego de Lima — podendo ser, creio, uma maneira bastante sutil de a autora colocar seu pé naquela época; um livreiro mal-humorado e seu Sebo — em torno do qual gravitam o mundo e o submundo cultural da cidade; uma cafetina exótica, retrato e ao mesmo tempo espelho das contradições da cultura brasileira; além destes, o livro traz outras encarnações da vida política, literária e marginal do Rio de Janeiro. Assim procedendo, ao acompanhar a cuidadosa arquitetura projetada por Luciana, chegamos ao 11º e último capítulo, não para com ela finalizar um relato, mas para adentrar seu núcleo, o cerne duro da urgência literária frequentada por Lima. É com certeza o mais belo momento de um belo livro. Aprendemos que a paciência, além de um método, é também um estilo. A riqueza de detalhes, a pesquisa rigorosa de época e a elegância da escrita garantem ao leitor uma viagem no tempo. Luciana Hidalgo começou com o pé direito o passeio no mundo do romance. Chapeau!

Hidalgo, Luciana. Rio de Janeiro: Rocco, 2011

O passeador
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