En omfavnelse

Meu poema "um abraço" traduzido para o dinamarquês por Tiago Gonçalves e Charlotte Kaare-Andersen, a quem agradeço de coração.

En omfavnelse

da vi mødtes og omfavnede hinanden i blot
et par sekunder, da jeg lagde mit hoved ved din side
og da din torso for et øjeblik klyngede sig
til min torso, med min hånd hvilende på din
ryg, på din hud, ved din rygrad
det der som regel defineres som en omfavnelse
som en hilsen, som to mennesker der ikke har set hinanden
i nogen tid, og som for en stund omfavner hinanden
for at fejre glæden ved mødet, anerkendelsen
i ansigtet, i kroppen, det gensidige liv, denne omfavnelse
fejres, ved en lille intimitet, et møde, selv om
for et kort øjeblik, et kort tidslaps, to
eller tre sekunder, lidt mere eller mindre end
dette, denne omfavnelse der involverer min torso mod din torso, hvorved
din krop blomstrer, hvorfra dine lemmer udspringer
og hvor væsker cirkulerer og elektriske spændinger i
bittesmå pulserende stød, der giver integritet til
din krop, som får din krop holde sig stående,
foran mig, kommanderede dine arme til at sammenflette sig
i mine i denne konfiguration som karakteriserer en omfavnelse, dennee
og enhver anden, denne omfavnelse hvor vores kroppe mødtes
og i et par simpele sekunder føles under min hånd
din ryg, din rygrad og dine ribben under mine fingre,
hvor jeg følte eller mærkede intuitivt dit hjerte bankende derinde
kommanderende med maskineriet i din krop, puffende
til dit liv, tanker, drømme, erindringer, at fortsætte
i dagen, i tiden, under min hånd liggende fladt på
din ryg, under forsigtigt tryk (eller dedikeret) af
mine fingre, stilladset der beskytter dit liv,
det liv, der cirkulerer i din torso, der for et sølle øjeblik
er limet til min torso, da din barm
blev limet til mit bryst, når dit hjerte
nærmede sig min ved mit, i den tid en omfavnelse
normalt varer, varigheden af armene og torsoen,
længden af kroppen, af hånden fladt mod din ryg,
i en hverken enorm eller lillebitte stund, der varede
denne omfavnelse, der omfavnede liv, drømmene,
tankerne, de sammenflettede smil, som armene,
som de tætte torsoer, unisont, hvem ved
en umålelig mængde tid, ville jeg sige, men
effektivt mærket af kroppen og fremsendt via
elektriske og kemiske midler til det sted, der giver
genereringen af disse ord, hvor ideer blomstrer
at ophobes og dvæler i min krop, som omfavner
mit liv fra denne omfavnelse af som lidt
eller næsten intet varede i forhold til kronologisk tid,
men som insisterer på, at selv nu og her, når det invaderer mig
måden hvorpå din torso var limet til min den dag vi
fandt hinanden

[Jeg elskede det! Mange, mange tak Tiago og Charlotte!!!]

evidências

evidências

que peso pode ter uma palavra, qualquer
palavra, dentro de um poema, e que peso
pode ter essa palavra numa matéria jornalística,
ou econômica, ou política, numa revista
semanal norte-americana pedindo ou
sugerindo a renúncia da presidenta, fora,
fora, fim, término, pois supostamente
devemos acreditar em jornalistas e em
economistas, e em jornalistas-economistas,
em juízes e procuradores, em advogados,
em banqueiros, nos donos da mídia
do país, das revistas e canais de tv,
divididos, mas juntos, suas palavras propõem
nova divisão, novo arranjo produtivo,
nova repartição dos bens públicos, pois
dividimos, ao que parece, para
escolher de que lado ficamos, e também
para escolher de que lado não queremos
ficar, aplicando assim o método da
divisão, dividimos a cor da pele, a cor
da camisa, qual o dia da passeata que
devemos ir, o lado da cama que devemos
dormir, se mijamos em pé ou sentado,
dividimos para escolher a melhor porção,
a melhor fatia, fatiamos, retalhamos
para apontar o filho bastardo, o que
não tem direito a ter relógio de ouro,
o que não pode ter casa de praia, quem
pode e quem não pode dar palestra
de duzentos mil reais, quem pode
perambular bêbado pelo leblon, quem
pode e quem não pode cheirar cocaína,
você até pode tirar um repórter de dentro
do estadão, mas não pode tirar o estadão
de dentro do repórter, quem é pobre
deve manter a alma de pobre e morar em
maricá, quem é filho de general pode
ter apartamento em paris, pode ter
amante teúda e manteúda em paris, pode
ter filha recebendo salário em gabinete
de deputado sem ir trabalhar, e se
você for jornalista de o globo, do estadão, da
folha ou de um dos outros pasquins inomináveis,
você terá de retirar alguns nomes da matéria,
"se quiser eu tiro", você disse, e talvez
você tenha recebido um email vindo de
cima dizendo o que você pode e o que
não pode falar, que listas e que falas
você pode e mesmo deve dramatizar
na edição da noite, e para continuar do
lado certo da divisão você terá de
aprender como e quando se escandalizar,
você não poderá se escandalizar com
tudo, mas só com certas coisas, e então
nós, por nossa vez, aprendemos a
identificar essas evidências quando você
compartilha, prefere compartilhar, a matéria
da the economist e não a da bbc, e
quando você examinar crise na universidade
pública será, deverá ser, sob a ótica de
um empresário, de um redator, de uma chefia, e
assim nos dividimos e nos pulverizamos
e nos chocamos com coisas tão diversas,
e então eu me lembro quando você me disse
que a propriedade privada é a mola mestra
da sociedade, o direito à propriedade é
o fundamento das relações sociais, e eu
fiquei tão chocado com essa fala, com
essa divisão que se interpunha entre dois
amigos, e tantos posts dizem que não se
deve romper amizades em função de
divergências políticas, e eu até acredito
nisso, mas é tão difícil enxergá-lo de
onde estou, do outro lado desse abismo,
e as evidências são assim pistas que a
gente segue, como policiais e jornalistas
seguem pistas, nós também seguimos os
rastros dos jornalistas e dos policiais, e
dos juízes que também dividem, escolhem
lados, separam o joio do trigo, encontram
agulhas em palheiros, mas não veem as
raposas se aproximando do galinheiro

 

Essa gente que desce hoje para a rua

essa gente que desce hoje para a rua

é possível encontrar entre essa gente que desce hoje
para a rua, como desceram por 49 vezes de março
a junho de 64, como desceram empunhando o
estandarte carmim com o leão dourado para
protestar contra o divórcio, contra a reforma
agrária, contra o aborto, contra a ameaça do
comunismo, contra a corrupção dos valores da
família e da propriedade, em defesa da família, em
defesa da propriedade

como nos anos 50 desceram os que achavam que
o getúlio não podia ser candidato, se candidato não
podia ser eleito, se eleito não podia ser empossado,
se empossado era preciso ser impedido de governar

entre essa gente é possível encontrar aqueles que não
são eles mesmo corruptos, aqueles que não pagam
propina, que não fraudam o imposto de renda, que
não estacionam em fila dupla, que não são
funcionários-fantasma, que não se beneficiam de
alguma forma de nepotismo

é possível encontrar entre eles os que não se incomodam
que porteiros e domésticas ascendam socialmente, os
que não se opõem a que gays, lésbicas, trans e inters
tenham direitos civis, os que não tenham obsessão
por armas de fogo

entre essa gente que desce para a rua hoje, nesse dia
chuvoso, podemos encontrar os que não tenham como
ídolos o steve Jobs, o bill gates ou o trump, os que não
tenham como paradigma o lobão e o roger, os que
não ignoram que as famílias marinho, frias, mesquita
e civita formam um consórcio criminoso, os que não se
miram no eike batista ou no lemann, os que não
acham que juízes são deuses, os que não tenham
como meta levar os filhos para passear na disney,
os que não se ressentem com o fato de que pobre
agora possa pegar avião

podemos encontrar entre essa gente os que não estão
com sangue nos olhos, os que não veem graça no
danilo gentille, os que não acham o luciano huck
um cara bacana, os que não repercutem nas redes
sociais os textos do constantino, do azevedo, do
mainardi, os que não são olavetes, os que não
compartilham vídeos e expressões do bolsonaro,
do malafaia, do feliciano, os que não publicam
na sua timeline a reportagem de 1975 do amaral
neto, o repórter, elogiando a ditadura militar

é possível encontrar aqueles que, em 1888, não
se oporiam ao fim da escravidão, e que hoje
não perpetuam a escravidão em suas formas
veladas e escancaradas, aqueles que se chocam
com o fato de a mulher do cunha não ter sido
ainda presa, que se chocam também que
o episódio do helicóptero do pó tenha
desaparecido da mídia sem sofrer qualquer
tipo de investigação

creio ser possível encontrar quem não esteja a
serviço direto ou indireto da bancada da bala,
da bancada do boi, da bancada da bíblia, quem
não queira entregar o controle do país ao
congresso mais conservador e hipócrita da
história do país

enfim, é possível encontrar entre essa gente os
que descem para a rua apenas por amor, não
por ódio, ou por revanchismo, ou por desconsiderar
as regras do jogo

mas é bom levar uma lanterna

 

Versão em língua francesa para poema O abraço

Com a ajuda do Marcelo Jacques de Moras, fiz uma primeira versão para o francês do meu poema "um abraço", do livro Romance (p. 18-19):

 

un enlacement

lorsque nous nous sommes rencontrés et nous sommes
serrés dans les bras l’un de l’autre pour quelques
secondes, quand j’ai mis ma tête sur ton
épaule et ton torse pour quelques instants s’est collé
au mien, ma main posée sur ton dos, sur
ta peau, sur ta colonne vertébrale, ce qu’on définit
d’habitude comme un enlacement ou une accolade de
salut, par deux personnes qui ne se sont pas vues depuis
quelque temps, et pendant un certain temps s’embrassent
pour célébrer la joie de la rencontre, la reconnaissance
du visage, du corps, de la vie commune, cet enlacement
fête l'intimité d’une réunion, même
furtive, pour une courte période de temps, deux
ou trois secondes, un peu plus ou un peu
moins, cet enlacement de ta poitrine dans la mienne,  d’où
jaillit ton corps, où naissent tes membres et par où
circulent des fluides et des tensions électriques dans des
minuscules éclats, afin de régler le tonus qui donne de l'intégrité
à ton corps, qui fait que ton corps est ici debout,
devant moi, commandant tes bras à enlacer les
miens dans cette configuration typique de l’enlacement, de celui-ci
et de tous les autres, enlacement où nos corps se touchent
et où pour des infimes instants j’ai ressenti sous ma main
ton dos, ta colonne vertébrale et tes côtes sous mes doigts,
où j’ai ressenti ou pressenti que ton cœur battait là dedans,
et commandait la machinerie de ton corps et donnait de l’élan
à ta vie, à tes pensées, à tes rêves, à tes souvenirs, à la poursuite
du jour, du temps, sous ma main à plat sur
ton dos, sous une pression très délicate (ou dévouée) de
mes doigts sur la charpente qui protège ta vie,
la vie qui circule dans ta poitrine, pour des infimes instants
collée à mon corps, quand tes seins se sont
collés à mos torse, quand ton cœur s’est
rapproché du mien par le temps que dure d’habitude
l’enlacement, la durée des bras et du torse,
la durée du corps, de la main à plat sur ton dos,
pour le temps ni énorme ni minuscule qui s’est prolongé
dans cet enlacement où se sont embrassés la vie, les rêves,
les pensées, les sourires entrelacés, tout comme les bras,
tout comme les torses rapprochés, unis, peut-être, dans la durée
d’un intervalle incommensurable de temps, je dirais, mais
effectivement ressenti par le corps et transmis par des moyens
électriques et chimiques à l'endroit où se produit
la génération de ces mots, où naissent des idées
qui se gardent et s'attardent dans mon corps, qui s’enlacent
dans ma vie à partir de cet embrassement qui n’a duré que
très peu ou presque rien par rapport au temps chronologique,
mais qui insiste toujours en moi, et qui m’envahit
avec la forme de ton torse collé au mien dans ce jour où nous
nous sommes rencontrés

© Caio Meira [Romance, 2013, p. 18-19].
Versão de Caio Meira e Marcelo Jacques de Moraes