evidências

evidências

que peso pode ter uma palavra, qualquer
palavra, dentro de um poema, e que peso
pode ter essa palavra numa matéria jornalística,
ou econômica, ou política, numa revista
semanal norte-americana pedindo ou
sugerindo a renúncia da presidenta, fora,
fora, fim, término, pois supostamente
devemos acreditar em jornalistas e em
economistas, e em jornalistas-economistas,
em juízes e procuradores, em advogados,
em banqueiros, nos donos da mídia
do país, das revistas e canais de tv,
divididos, mas juntos, suas palavras propõem
nova divisão, novo arranjo produtivo,
nova repartição dos bens públicos, pois
dividimos, ao que parece, para
escolher de que lado ficamos, e também
para escolher de que lado não queremos
ficar, aplicando assim o método da
divisão, dividimos a cor da pele, a cor
da camisa, qual o dia da passeata que
devemos ir, o lado da cama que devemos
dormir, se mijamos em pé ou sentado,
dividimos para escolher a melhor porção,
a melhor fatia, fatiamos, retalhamos
para apontar o filho bastardo, o que
não tem direito a ter relógio de ouro,
o que não pode ter casa de praia, quem
pode e quem não pode dar palestra
de duzentos mil reais, quem pode
perambular bêbado pelo leblon, quem
pode e quem não pode cheirar cocaína,
você até pode tirar um repórter de dentro
do estadão, mas não pode tirar o estadão
de dentro do repórter, quem é pobre
deve manter a alma de pobre e morar em
maricá, quem é filho de general pode
ter apartamento em paris, pode ter
amante teúda e manteúda em paris, pode
ter filha recebendo salário em gabinete
de deputado sem ir trabalhar, e se
você for jornalista de o globo, do estadão, da
folha ou de um dos outros pasquins inomináveis,
você terá de retirar alguns nomes da matéria,
"se quiser eu tiro", você disse, e talvez
você tenha recebido um email vindo de
cima dizendo o que você pode e o que
não pode falar, que listas e que falas
você pode e mesmo deve dramatizar
na edição da noite, e para continuar do
lado certo da divisão você terá de
aprender como e quando se escandalizar,
você não poderá se escandalizar com
tudo, mas só com certas coisas, e então
nós, por nossa vez, aprendemos a
identificar essas evidências quando você
compartilha, prefere compartilhar, a matéria
da the economist e não a da bbc, e
quando você examinar crise na universidade
pública será, deverá ser, sob a ótica de
um empresário, de um redator, de uma chefia, e
assim nos dividimos e nos pulverizamos
e nos chocamos com coisas tão diversas,
e então eu me lembro quando você me disse
que a propriedade privada é a mola mestra
da sociedade, o direito à propriedade é
o fundamento das relações sociais, e eu
fiquei tão chocado com essa fala, com
essa divisão que se interpunha entre dois
amigos, e tantos posts dizem que não se
deve romper amizades em função de
divergências políticas, e eu até acredito
nisso, mas é tão difícil enxergá-lo de
onde estou, do outro lado desse abismo,
e as evidências são assim pistas que a
gente segue, como policiais e jornalistas
seguem pistas, nós também seguimos os
rastros dos jornalistas e dos policiais, e
dos juízes que também dividem, escolhem
lados, separam o joio do trigo, encontram
agulhas em palheiros, mas não veem as
raposas se aproximando do galinheiro

 

Essa gente que desce hoje para a rua

essa gente que desce hoje para a rua

é possível encontrar entre essa gente que desce hoje
para a rua, como desceram por 49 vezes de março
a junho de 64, como desceram empunhando o
estandarte carmim com o leão dourado para
protestar contra o divórcio, contra a reforma
agrária, contra o aborto, contra a ameaça do
comunismo, contra a corrupção dos valores da
família e da propriedade, em defesa da família, em
defesa da propriedade

como nos anos 50 desceram os que achavam que
o getúlio não podia ser candidato, se candidato não
podia ser eleito, se eleito não podia ser empossado,
se empossado era preciso ser impedido de governar

entre essa gente é possível encontrar aqueles que não
são eles mesmo corruptos, aqueles que não pagam
propina, que não fraudam o imposto de renda, que
não estacionam em fila dupla, que não são
funcionários-fantasma, que não se beneficiam de
alguma forma de nepotismo

é possível encontrar entre eles os que não se incomodam
que porteiros e domésticas ascendam socialmente, os
que não se opõem a que gays, lésbicas, trans e inters
tenham direitos civis, os que não tenham obsessão
por armas de fogo

entre essa gente que desce para a rua hoje, nesse dia
chuvoso, podemos encontrar os que não tenham como
ídolos o steve Jobs, o bill gates ou o trump, os que não
tenham como paradigma o lobão e o roger, os que
não ignoram que as famílias marinho, frias, mesquita
e civita formam um consórcio criminoso, os que não se
miram no eike batista ou no lemann, os que não
acham que juízes são deuses, os que não tenham
como meta levar os filhos para passear na disney,
os que não se ressentem com o fato de que pobre
agora possa pegar avião

podemos encontrar entre essa gente os que não estão
com sangue nos olhos, os que não veem graça no
danilo gentille, os que não acham o luciano huck
um cara bacana, os que não repercutem nas redes
sociais os textos do constantino, do azevedo, do
mainardi, os que não são olavetes, os que não
compartilham vídeos e expressões do bolsonaro,
do malafaia, do feliciano, os que não publicam
na sua timeline a reportagem de 1975 do amaral
neto, o repórter, elogiando a ditadura militar

é possível encontrar aqueles que, em 1888, não
se oporiam ao fim da escravidão, e que hoje
não perpetuam a escravidão em suas formas
veladas e escancaradas, aqueles que se chocam
com o fato de a mulher do cunha não ter sido
ainda presa, que se chocam também que
o episódio do helicóptero do pó tenha
desaparecido da mídia sem sofrer qualquer
tipo de investigação

creio ser possível encontrar quem não esteja a
serviço direto ou indireto da bancada da bala,
da bancada do boi, da bancada da bíblia, quem
não queira entregar o controle do país ao
congresso mais conservador e hipócrita da
história do país

enfim, é possível encontrar entre essa gente os
que descem para a rua apenas por amor, não
por ódio, ou por revanchismo, ou por desconsiderar
as regras do jogo

mas é bom levar uma lanterna