Terminei há alguns dias, com enorme atraso, a leitura de O Passeador, da Luciana Hidalgo.

Fui um dos primeiros a comprar o livro, em sua versão digital. O atraso gigantesco, de cerca de 4 anos, se deu sobretudo porque nos últimos tempos andei tomado e encantado por tudo o que gira em torno da fotografia, da imagem. Nesse período, negligenciei não apenas as minhas leituras (incluindo aí os livros lançados por amigos), mas também minha própria escrita. Esse sentimento de dívida se agravava para mim pelo fato de eu e Luciana Hidalgo termos ganhado, no mesmo ano, o prêmio a Bolsa Funarte para Criação Literária, em 2011, Luciana pelo Passeador (que também foi finalista do Jabuti de 2012) e eu pelo Romance, que publiquei em 2013.

Mas estou de volta! Então, aqui vão minhas impressões de O Passeador.

Mademoiselle Hidalgo, em seu primeiro romance, leva para o registro da ficção a matéria que por anos tratou como pesquisadora, a literatura urgente (e a vida) de Lima Barreto. Para qualquer criador, saber muito sobre alguma coisa apode apresentar toda uma série de riscos. Um deles, por exemplo, seria o de encontrar um espaço para dar à imaginação, à criação, em especial considerando que o personagem ficcional de fato existiu, publicou livros, foi alvo de biografias e estudos. Se os fatos mais prementes da vida de Lima Barreto são conhecidos, tais como o alcoolismo, a loucura e o preconceito de que foi vítima, qual é o espaço possível de ficcionalização? Aqui, Luciana diz a que veio. O Passeador não busca, a meu ver, ao contrário que poderia parecer, produzir fatos ficcionais explicativos da vida de Lima, um completar de lacunas ou o preenchimento de vazios subjetivos que viriam dar de seus motivos maiores. Trata-se, bem mais, da dedicada reconstrução de uma época, de uma sociedade e de uma cultura, tal como configuradas na cidade do Rio de Janeiro no início do séc. XX. A escrita de Luciana não segue em linha reta, acrescentando fatos aos fatos, sejam estes ou aqueles imaginários ou reais. Como acontece com um passeador real, ela prefere construir com delicada firmeza a atmosfera de um tempo, seus personagens, suas ruas, um momento histórico preciso da vida do país.

Nesse sentido, os capítulos, mais do que se sucederem uns aos outros, vão se posicionando espacialmente, em favor da recriação paulatina do universo em que passeou, viveu, amou e sofreu não apenas Lima, mas muitos dos seus contemporâneos: Sofia, uma co-protagonista, mas também um tipo de alterego de Lima — podendo ser, creio, uma maneira bastante sutil de a autora colocar seu pé naquela época; um livreiro mal-humorado e seu Sebo — em torno do qual gravitam o mundo e o submundo cultural da cidade; uma cafetina exótica, retrato e ao mesmo tempo espelho das contradições da cultura brasileira; além destes, o livro traz outras encarnações da vida política, literária e marginal do Rio de Janeiro. Assim procedendo, ao acompanhar a cuidadosa arquitetura projetada por Luciana, chegamos ao 11º e último capítulo, não para com ela finalizar um relato, mas para adentrar seu núcleo, o cerne duro da urgência literária frequentada por Lima. É com certeza o mais belo momento de um belo livro. Aprendemos que a paciência, além de um método, é também um estilo. A riqueza de detalhes, a pesquisa rigorosa de época e a elegância da escrita garantem ao leitor uma viagem no tempo. Luciana Hidalgo começou com o pé direito o passeio no mundo do romance. Chapeau!

Hidalgo, Luciana. Rio de Janeiro: Rocco, 2011

O passeador
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Compartilhamentos [© Caio Meira]
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