não há mais poetas

 

não há um poeta no brasil, disse o cantor e
violonista, desgostoso com o país, afirmando
ter vergonha de estar aqui nesse momento, o
que meu amigo morto diria da presidenta, o que
meu amigo morto diria do lula, pergunta-se, não
há um poeta nesse momento, para esse momento
não há poetas vivos, não há, a poesia está
morta, o que o poeta morto diria disso
tudo, da corrupção, dos escândalos, não
há mais poetas no país, talvez tenham fugido,
talvez tenham sido expulsos da nossa
república, talvez até existam aqueles que
se autoproclamam poetas, mas não, não há,
não pode mais haver geração como aquela, na
qual os poetas se infiltravam pelo poder, nas
embaixadas, no funcionalismo público, o pelé
só é poeta quando se cala, os poetas só podem
ser poetas quando se calam, isso é uma
pergunta, só quando se calam, porque as
pessoas estão prontas para ir às ruas vestidas
com a camisa da cbf, para ver se descolam a
volta dos militares, dos anos de chumbo, e os
poetas não podem ter nada a dizer sobre
isso, talvez o cantor esteja apenas nostálgico do
seu amigo, as saudades o fariam sentir vergonha
de ser brasileiro, por isso ele diz que num país
como esse nada mais pode ser criado, nenhuma
nova bossa, e se pretensos poetas dizem coisas,
escrevem, publicam, enchem as prateleiras
de livros de pretensa poesia, não há mais, não
pode mais haver poesia para este momento, afinal
a poesia é aquilo que os homens mandam pras
mulheres, namoradas, mães, filhas, aquela coisa
bonitinha, no dia internacional da mulher, e fica
resolvido o problema da violência contra a mulher,
com posts e palavrinhas bonitinhas, cheias de
flores, viva a mulher, isso sim é coisa de poeta, então
ao contrário do que diz o cantor, somos todos
poetas, ou então ele, o cantor, está certo, não
há poetas hoje, eles não circulam mais pela
república em que vivemos, os sebos estão
cheios de livros de pretensa poesia, relegados
ao esquecimento, você diz, hoje, “ele é um
poeta” quando alguém diz alguma coisa
totalmente desconectada com aquilo que
chamam de realidade, coisas sem peso, sonhadoras
e bonitinhas, e quando o vice-presidente se revela
poeta, é aquela coisa constrangedora, afinal é isso
ser poeta, ser totalmente omisso, mas “num escrito
escrito pra mim”, no caso, pra ele, produzir um
“embarquei na tua nau”, no comments please,
então, retomando o enunciado do cantor, não há
um poeta sequer para esse momento de ódio, de
sangue nos olhos, ou talvez os poetas mais cedo
ou mais tarde venham dar sua visão desse momento, os
poetas que não existem, mas quem sabe talvez
nos rondem como espectros, já que expulsos,
ainda outra vez expulsos, postos para fora, não
há mais poetas, exceto, possivelmente, os
espectrais, assim, se não há mais poetas, pode
ser que a poesia continue a ser fantasmagórica, e
surja de surpresa, como fazem os fantasmas, seres
suprarreais, ou infrarreais, de fora, por isso o cantor
talvez não consiga vê-los, pois o espectro da
poesia vai sempre nos rondar, principalmente
quando não esperarmos mais por eles

 

Caio Meira

Compartilhamentos [© Caio Meira]
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