Jacques Roubaud / Algo Escuro

poemas

 

Tradução: Caio Meira

 

 

 

A irressemelhança

 

O resultado da investigação foi o seguinte: o precipitado de semelhanças. a teia da semelhança. seus fios cruzados e recruzados.

 

Por vezes, a semelhança de tudo. por vezes a semelhança aqui e agora.

 

Em seguida que você e sua morte não tinham traços familiares.

 

Isso parece simples. então: não era mais o caso de uma exigência difícil. nenhuma interrogação áspera. simplesmente a tagarelice dolorosa. inútil. superficial e trivial.

 

“Um cão não pode simular a dor. será que é porque ele é honesto demais?”

 

Seria preciso entrar em contato com a descrição.

 

Em poucas palavras aquilo que não se mexia.

 

Pois isso me tinha sido enviado reconhecido. enquanto nada em minha experiência o indicava.

 

Você estava morta. e isso não mentia.

 

 

L’irresemblance

 

Le résultat de l’investigations était celui-ci : le précipité des ressemblances. la toile de la ressemblance, ses fils croisés e recroisés.

 

Parfois la ressemblance de partout. parfois la ressemblance là.

 

Ensuite que toi et ta mort n’avaient aucun air de famille.

 

Cela semble simple. alors : il n’y avait plus lieu d’une réquisition difficile. d’aucune interrogations rude. simplement le bavardage douloureux. inutile. superficiel et trivial.

 

« Un chien ne peut pas simuler la douleur, est-ce parce qu’il est trop honnête ? »

 

Il fallait faire connaissance avec la description.

 

En quelques mots ce qui ne se bougeait pas.

 

Car cela m’avait été envoyé reconnu. alors que rien ne s’en déduisait de mon expérience.

 

Tu étais morte. et cela ne mentait pas.

 

 

Meditação do 21/7/85

 

Olhei esse rosto. que fora meu. da maneira mais extrema.

 

Alguns. em tais momentos. pensaram invocar o repouso. ou o mar da serenidade. isso talvez lhes tenha dado algum sossego. não a mim.

 

Sua perna direita tinha-se levantado. e estava um pouco aberta. como na fotografia intitulada o último quarto.

 

Mas seu ventre dessa vez não estava na sombra. ponto vivo no mais puro escuro. não um manequim. mas uma morta.

 

Essa imagem se apresenta pela milésima vez. com a mesma insistência. ela não pode não se repetir indefinidamente. com a mesma avidez de detalhes. não os vejo se atenuarem.

 

O mundo me sufocará antes que ela se apague.

 

Não pratico nenhuma lembrança. não me autorizo nenhuma evocação. não há lugar de escape.

 

Não venham me dizer: “sua morte é ao mesmo tempo o instante que precede e aquele que sucede seu olhar. você nunca mais vai o verá”.

 

Não venham me dizer: “é preciso calá-lo”.

 

 

Méditation du 21/7/85

 

Je regardais ce visage. qui avait été à moi. de la manière la plus extrême.

 

Certains. en des semblables moments. ont pensé invoquer le repos. ou la mer de la sérénité. cela leur fut peut-être de quelque secours. pas moi.

 

Ta jambe droite s’était relevée. et écartée un peu. comme dans ta photographie titrée la dernière chambre.

 

Mais ton ventre cette fois n’état pas dans l’ombre. point vivant au plus noir. pas un mannequin. mais une morte.

 

Cette image se présente pour la millième fois. avec la même insistance. elle ne peut pas ne pas se répéter indéfiniment. avec la même avidité dans les détails. je ne les vois pas s’atténuer.

 

Le monde m’étouffera avant qu’elle ne s’efface.

 

Je ne m’exerce à aucun souvenir. je ne m’autorise aucune évocation. il n’y a pas lieu qui lui échappe.

 

On ne peut pas me dire : « sa mort est à la fois l’instant qui précède et celui qui succède à ton regard. tu ne le verras jamais ».

 

On ne peut pas me dire : « il faut le taire ».

 

 

No espaço mínimo

 

Afasto-me muito pouco desse lugar como se a reclusão num espaço mínimo fosse lhe restituir a realidade, porque era onde você vivia comigo.

 

Tanto ao descer quanto ao subir, o sol penetra, quando há sol, e segue seu caminho reconhecível, por paredes, pisos, cadeiras, curvando, deitando as portas.

 

Fico muito ali, seguindo-o com os olhos, interpondo minha mão, não fazendo nada, pensando, complemento de imobilidade.

 

Você não habita esses cômodos, eu quase não poderia dizer isso, quase não sou assombrado por você, são raras, agora, as alucinações noturnas de sua voz, não a surpreendo mais ao abrir a porta, ou os olhos.

 

O que me ocupa, inteiramente, e me demove do exterior, de me distanciar, de deixar os quartos, os movimentos do sol, é o espaço, apenas o espaço, tal como você o tinha preenchido com imagens, suas imagens, seus tecidos, seu odor, seu calor escuro, com seu corpo.

 

Ao partir, você não foi colocada em outro lugar, você se diluiu nesse espaço mínimo, evadindo-se nesse mínimo espaço, ele a absorveu.

 

À noite, sem dúvida, se me levanto à noite, com angústia no peito, a janela enorme, esfregando os olhos, barulhenta, a noite, sem dúvida, eu poderia dar forma a você, falar, refazer você, costas, ventre, uma nudez úmida negra, não me deixo ir a esse ponto.

 

Abandono-me ao longo das janelas, da igreja, ao golfo de tetos à esquerda da igreja, aonde se lançam as nuvens, noite após noite.

 

Deixo o sol se aproximar, me cobrir, deitar-se, deixando seu calor por um momento, pensando, sem acreditar, em sua pele de volta ao mundo, revivida.

 

 

Dans l’espace minime

 

Je m’éloigne peu souvent de cet endroit comme si l’enfermement dans un espace minime te restituait de la réalité, puisque tu y vivais avec moi.

 

À sa descente, comme à sa montée, le soleil pénètre, s’il y a du soleil, et suit son chemin reconnaissable, sur les murs, les planchers, les chaises, courbant, couchant les portes.

 

Je suis là beaucoup, à le suivre des yeux, à interposer ma main, sans rien faire, penser, complément d’immobilité.

 

Tu n’habites pas ces pièces, je ne pourrais dire cela, je ne suis pas hanté de toi, je n’ai plus, maintenant, que rarement l’hallucination nocturne de ta voix, je ne te surprend pas en ouvrant la porte, ni les yeux.

 

Cela qui m’occupe, entièrement, et me détourne du dehors, de m’éloigner, de quitter les chambres, les mouvements du soleil, c’est l’espace, l’espace seul, tel que tu l’avais empli d’images, de tes images, de tes étoffes, de ton odeur, de ta sombre chaleur, de ton corps.

 

Disparaissant, tu n’a pas été mise ailleurs, tu t’es diluée dans ce minime espace, tu t’es enfuie dans ce minime espace, il t’a absorbée.

 

La nuit sans doute, si je m’éveille dans la nuit, avec l’angoisse de poitrine, la fenêtre énorme, à me toucher les yeux, bruyante, la nuit sans doute, je pourrais te donner forme, parler, te refaire, un dos, un ventre, une nudité humide noire, je ne m’y abandonne pas.

 

Je ne m’abandonne à l’allongement des fenêtres, de l’église, au golfe des toits à gauche de l’église, où se lancent les nuages, soir après soir.

 

Je laisse le soleil s’approcher, me recouvrir, s’éteindre, laissant sa chaleur un moment, pensant, sans croire, ta chair remise au monde, ravivée.

 

 

 

Fotonovela

 

A novela se compõe de aventuras narradas no tempo de seu advento.

 

A importância e o sentido desse constrangimento não são dissimulados.  Ao contrário, é dito de forma explícita que as coisas relatadas se passam no tempo em que são relatadas.

 

Não se trata, porém, de um diário.

 

Pois o presente aí fala presente sem de modo algum se esgotar. Não há a descontinuidade das datas, das páginas, dos arrependimentos, do diário.

 

Há alguém, um homem.  Ele não é nomeado.  Há sua jovem mulher, que está morta.

 

A novela se passa em vários mundos possíveis.  Em alguns, a mulher jovem não está morta.

 

O tempo é o presente.  O tempo de cada mundo possível é o presente.

 

Os ruídos, as épocas, mesmo os sabores, são escritos na luz, e nas nuvens.  O que, mais do que tudo, demonstra respeito ao constrangimento que governa a composição da novela.

 

Quando não há mais do que um só mundo, onde ela está morta, a novela termina.

 

 

Roman-photo

 

Le roman se compose d’aventures racontées dans le temps de leur avènement.

 

L’importance et le sens de cette contrainte ne sont pas dissimulés. Au contraire il est dit explicitement que les choses racontées se passent dans le temps où elles se racontent.

 

Mais ce n’est pas pour autant un journal.

 

Car le présent y parle présent sans y être aucunement révolu. Il n’y a pas la discontinuité des dates, des pages, des regrets, du journal.

 

Il y a quelqu’un, un homme. Il n’est pas nommé. Il y a sa jeune femme, qui est morte.

 

Le roman se passe dans plusieurs mondes possibles. Dans certains, la jeune femme n’est pas morte.

 

Le temps est le présent. Le temps de chaque monde possible est le présent.

 

Les bruits, les époques, même les saveurs, sont écrits à la lumière, et les nuages. C’est ce qui, plus que tout, montre le respect de la contrainte qui gouverne la composition du roman.

 

Quand il n’y a plus qu’un seul monde, où elle est morte, le roman est fini.

 

 

Fotonovela, II

 

É ainda uma outra novela, talvez a mesma.

 

Um homem abandonado, por causa de uma morte, recebe um telefonema.  Esse telefonema é uma chamada da mulher amada, e morta.

 

Ele reconhece sua voz.  Ela o chama de um mundo possível, outro, em tudo semelhante àquele ao qual ele está habituado, com a única diferença de que, nesse mundo, ela não está morta.

 

Mas o que ele dirá? o que se passou naquele mundo em trinta meses? que ela lhe dirá? como ele entrará nesse mundo onde o horror não tem lugar, nesse mundo onde a morte é abolida, onde continua a luta contra a morte, onde eles se obstinam nesse combate que aqui, no mundo onde ele ainda está no momento em que ele atende o telefone, foi perdido.

 

Ele vai atender e escutar sua voz.  O mundo onde ele ainda está (o telefone acaba de tocar, mas ele ainda não mexeu a mão para responder) será esquecido.

 

Esse mundo não terá sido. Ele terá sido somente como um mundo possível, onde a morte é que foi, e não a vida.  Um mundo no qual ele continuará a pensar todo o tempo, ainda que não seja pensável.

 

Imaginando, em sua imaginação, quando estará nesse mundo, esse onde ela estaria morta.  Mas ele não será, de fato, capaz de imaginá-lo.

 

O telefone não toca.  Enquanto não toca, o novo mundo, o mundo possível ainda é possível.  Ainda é possível que o telefone toque, e que a voz que surja seja a voz da mulher amada, e morta.  Deixando de estar morta, sem nunca ter estado morta.

 

O telefone vai tocar.  A voz que o homem abandonado por causa da morte vai escutar não será a da mulher amada.  Será outra voz, uma voz qualquer.  ele a escutará.  Isso não prova que ele está vivo.

 

 

Roman, II

 

 

C’est un autre roman encore, peut-être le même.

 

Un homme abandonné, à cause d’une mort, reçoit un coup de téléphone. Ce coup de téléphone est un appel de la femme aimée, et morte.

 

Il reconnaît sa voix. Elle appelle d’un monde possible, autre, en tout point semblable à celui auquel il est habitué, avec cette seule différence que, dans ce monde, elle n’est pas morte.

 

Mais que dira-t-il ? que s’est-il passé dans ce monde là en trente mois ? que lui dira-t-elle ? comment entrera-t-il dans ce monde où l’horreur n’a pas eu lieu, ce monde à la mort abolie, où la lutte continue contre la mort, où ils s’obstinent à ce combat qui ici, dans le monde où il est encore au moment où il décroche l’appareil, a été perdu ?

 

Il décrochera, et il entendra sa voix. Le monde où il est encore (le téléphone vient de sonner mais il n’a pas encore bougé la main pour répondre) sera oublié.

 

Ce monde n’aura pas été. Il n’aura été que comme monde possible, où ce fut la mort qui fut, et non la vie. Un monde auquel il continuera de penser tout le temps, quoiqu’il ne soit pas pensable.

 

Imaginant, dans son imagination, quand il sera dans ce monde, celui où elle serait morte. Mais il ne sera pas, en fait, capable de vraiment l’imaginer.

 

Le téléphone ne sonne pas. Tant qu’il ne sonne pas le nouveau monde, le monde possible est encore possible. Il est encore possible que le téléphone sonne, et que la voix qui vienne soit la voix de la femme aimée, et morte. Ayant cessé d’être morte, ne l’ayant jamais été.

 

Le téléphone sonnera. La voix que l’homme abandonné à cause de la mort entendra ne sera pas celle de la femme aimée. Ce sera une autre voix, une voix quelconque. il l’entendra. Cela ne prouvera pas qu’il est vivant.

 

 

Pornografia

 

Uma lembrança pode ser pornográfica?

 

Seria preciso que uma pornografia pudesse não ser pública, ser sem um terceiro, já que uma lembrança não se escreve, não se mostra, não se diz. ser sem voyeurs.

 

Não sou necrófilo, não desejo seu cadáver. não sei o que é. se é. eu a vi morta. não a vi um cadáver.

 

Entretanto, eu desejo.

 

Essas lembranças são as mais sombrias de todas.

 

Elas cometem a maior das violências com o princípio de realidade.

 

Penetro, em pleno dia, nesses ardores.

 

Você se mexe, você respira.

 

Mas o silêncio, ali, é absoluto.

 

 

Pornographie

 

Un souvenir peut-il être pornographique ?

 

Il faudrait qu’une pornographie puisse ne pas être publique, être sans tiers, puisqu’un souvenir ne s’écrit pas, ne se montre pas, ne se dit pas.

 

Je ne suis pas nécrophile, je ne désire pas ton cadavre. je ne sais pas ce que c’est. si c’est. je t’ai vue morte, je ne t’ai pas vu cadavre.

 

Pourtant je désire.

 

Ces souvenirs sont les plus sombres de tous.

 

Ils font la violence la plus grande au principe de réalité.

 

J’enfonce, en plein jour, dans ces embrasements.

 

Tu bouges, tu respires.

 

Mais le silence y est absolu.

 

Compartilhamentos [© Caio Meira]
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