Relato (1980)

Tradução: Caio Meira

 

toda a memória do mundo

está num grão de areia

 

 

1. Ele e seu feminino Ilha.

2. Ele não existe Ele é a ilha.

Só o oceano existe.

3. Veja com que violência, por vezes,

o mar se obstina sobre sua ausência,

mais dura que a rocha.

Vagas, monstros em delírio, ó canto.

4. A ilha fora outrora a falta, o furo,

o esquecimento.

Como aconteceu?

Um vazio pleno de pedras,

em meio às ondas.

5. A terra é mais alta que o mar

e mais profunda;

mas acontece de água se vingar

de sua humilhação.

6. A ilha se conserva onde, ao seu redor, tudo

se move, palpita, treme.

7. Estável. Solitária.

8. Inabitável presença.

Inviolável ausência.

Qual delas vencerá

a outra?

9. A nau ignora sua rival.

10. A morte sem remor-

so.

11. Quem dirá que ele veio?

– A quem?

12. …e seu feminino ilha; tão exposta, tão

determinada.

13. Há muito tempo ele vaga. Um dia

ele passará, talvez, por este lugar.

14. …um dia, como uma ilha gêmea

em cima da ilha.

Translúcida, emancipada.

15. Todas as sortes

reunidas.

16. O sol, a salvo de seus raios.

(Plenitude redonda.

Intensa claridade.)

17. Ele não disse porque partira

nem quando voltaria.

Ele nada disse.

Ou quase…

18. Seu feminino Ilha, da parte dela, não

mais romperá o silêncio;

pois uma vez…

19. Desde então, ela espera.

Em silêncio.

20. Ele não disse por que foi

obrigado a partir.

A causa permanece inexplicável.

21. Nenhuma palavra precede as verdadeiras

partidas.

Somente uma palavra vindoura as

acompanha.

22. A seu respeito,

tudo o que se poderia dizer

é que, um dia, ele partiu

de casa.

23. Seu feminino Ilha, vê-se, não tinha

escolha.

24. Resistir à permanente ameaça

ambiente,

quem pode afirmar ter sido uma

escolha deliberada?

25. Redobrada sobre si própria

– ela está certa –

em alguns momentos

ela queria ter morrido.

26. O que não poderia se chamar uma

certeza:

um mórbido desejo de desaparecer,

antes.

27. (Não pode haver certeza

face a tantas brumas acumuladas;

vastas extensões, compactas,

fantasmáticas. )

28. Ele não existe. Ele é a ilha.

A experiência, o intervalo, persistem.

29. Isso se passou, sem dúvida,

assim.

No tempo de um clarão:

de uma improvisação.

30. Um instante amnésico de insolência.

31. Ele decidira.

Suas decisões são sempre

irrevogáveis.

32. Desde então,

nenhum repouso

ou trégua.

33. Um tumulto generalizado.

E ele, em pé,

face ao desconhecido.

34. Sua cabeça mais alta

que o horizonte

e o mundo.

35. …e sua sombra morna sobre a úmida

areia da ilha.

36. Jamais se contarão os passos da

ausência

e, entretanto, os escutamos

distintamente.

37. (…como batimentos surdos

no coração ou no peito;

como, de uma língua morta, o eco

cativo dos vocábulos próximos.)

38. Ele, o iluminado,

e seu feminino Ilha.

Ele, sem alvo.

Ela, o alvo.

39. …o habitado, o inabitado.

Destinado à errância.

40. Ele dissera… mas somente uma palavra.

Inaudível. Dolorosa.

41. Seu feminino Ilha, cedo percebeu.

(Sem perceber inteiramente.

Como se percebe o retorno

de um silêncio,

o inverso de um pensamento.)

42. Do que foi, no entanto, dito,

a extinção prematura.

Impressão

condenada.

Muda.

43. …onde o olhar não foca mais

o objeto.

44. (Do que foi realmente dito,

mas voluntariamente

embaçado

e amortalhado.)

45. Túmulo é, também, ilha: túmulo vazio

onde jaz o que, na manhã fascinada,

foi apenas esboçado.

46. Laceramento do par.

Fuga e ferros:

dupla evocação.

47. …um mesmo desamparo.

48. Ostensiva vontade de ser,

de durar.

Com o nada.

49. A esperança obstinada.

50. Ela, imóvel.

Ele, tão estranhamente móvel.

51. Jamais o silêncio

se refere ao silêncio.

Jamais a aurora, à aurora.

52. Ele, seus passos nos séculos.

Ela, fielmente congelada

no instante.

53. (…em meio a um universo enfurecido,

atada a seu espaço,

por pesadas correntes

de sombra e luz reunidas.)

54. Jamais à ausência

se refere a ausência.

Jamais ao crepúsculo, o crepúsculo.

55. A desmesura não seria senão

um limite perdido, reconquistado?

Onde ele não é mais suportável

e se confunde com sua ambição

inconfessada.

56. Abusiva pretensão do gesto;

da forma apaixonada por si própria.

No universo, tantos muros

provocantes

e portas proibidas.

57. Na profundeza do mar,

algas em deriva,

quantos liames desfeitos!

58. Ele, o excesso de um passo decidido.

Ela, a vertiginosa origem,

o ventre.

59. Ele, o nunca dito.

Ela, o dizer adiado.

60. Suas mamas ainda cheias de leite.

Mulher, na perenidade das fontes

e signos.

61. Ele e seu feminino ilha.

Margem e alto mar preparados.

Farol inútil.

62. Nenhum retorno em vista,

possível.

63. (Jamais haverá horas suficientes

para se esgotar

a memória.)

64. (…jamais a tripulação de um navio

para afrontar as ondas da eternidade,

dispersão de chamas.)

65. (Fragmentos de um espelho gigantesco,

que rosto prudente

ousaria curvar-se sobre eles?)

66. O fogo aninhado sob a onda e a água

era somente foco de incêndio;

somente opacidade escandalosa.

67. Intermitentes, via-se luzir,

por detrás de cortinas de fumaça,

insólitos e ávidos punhais.

68. Ferimentos. Loucura.

69. Não poder continuar

nem se deter…

70. …nem redizer.

71. Nada ter tido a dizer

e ter querido exprimi-lo.

72. Ele nada dizia

e seu feminino Ilha; ela

tateava, de tempos em tempos,

inquieta, o pulso do silêncio.

73. (O céu

em baixo

de sua cor;

em cima

estrelas e obscuridade

obstinadas.)

74. (Ultrapassado

o pensamento.)

75. Inferno de abismos

e cumes

no fio audacioso da pena.

76. Pelo fogo,

quantos fogos virgens

acesos!

77. Ele se queimando vivo

e seu feminino ilha;

nua, por entre suas cinzas,

ela velava, sentada.

78. A errância é a máscara

jogada,

pisoteada.

79. Armadilha – o limiar

e o término em acordo.

Ó perpétuo começo.

80. A mão nunca é

inocente.

A página sacrificada.

 

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