Água

Tradução: Caio Meira 

(Clique aqui para escutar um trecho desse poema lido por Edmond Jabès)

No começo, água.

Depois, água;

durante, sempre durante.

— Água do lago?

— Água do rio?

— Água do mar?

Jamais água sobre água.

Jamais água para água;

mas água onde não há mais água;

mas água na memória morta da água.

Viver na morte viva

entre a lembrança e o esquecimento da água,

entre a sede e a sede.

A água entra:

celebração.

A água se instala

e corre:

fertilidade.

Sempre água para água.

Sempre água sobre água.

Abundância.

— O deserto foi minha terra.

O deserto é minha viagem,

minha errância.

Sempre entre dois horizontes;

entre horizonte e gritos de horizontes.

Além-fronteira.

A areia brilha como a água

na sede inextinguível.

Tormento que a noite adormece.

Nossos passos fazem jorrar a sede.

Ausência.

— Água do lago?

— Água do rio?

— Água do mar?

Cedo, virá a água da chuva

para lavar a alma dos mortos.

Deixem passar as sombras queimadas,

as manhãs de árvores sacrificadas.

Fumaça. Fumaça.

(Gritos outrora em fruto,

em flor,

em folhas,

e longos braços estendidos.)

A cada braço, um horizonte.

A cada flor, cada fruto,

uma estação.

A cada folha, sua inclinação.

O céu olha a terra.

Escrever seria deixar as palavras transbordarem

para irrigar o solo.

Toda frase é de chuva

e de luz.

Escrevo o deserto.

Tão forte é a claridade

que a chuva volatilizou-se.

Não resta senão areia

por onde passo.

(Le Seuil Le sable, p. 382-384)

 

 

 

Compartilhamentos [© Caio Meira]
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