No oco da mão (1993)

 

Teologia

Não vamos ao cume da montanha gelada

nem vimos o sol acima das nuvens

Aqui

não cantamos mantras indianos

Não falamos sobre a fome

nem lembramos dos animais

mortos ou vivos no passado

Não diremos metáforas

Celebramos o nascimento da palavra

justa no espaço

do oco da mão

 

Poema para Gullar

O poema está à vista

ao alcance da mão

transbordando no bueiro

andando pela sala

esparramado

na cozinha

tecido num canto de armário

debaixo da cama

ao lado dos chinelos

O poema embrulha o peixe

na barraca da feira

entre um atropelamento e o zodíaco

de Domingo

na barraca da feira

aprende a ser vermelho

no tomate

ao lado das cenouras

e do cheiro-verde

O poema está nos dentes

e no lixo

está no estômago

e no esôfago

atravessado na garganta

pulsa

jugular

 

Minúsculas

bagos abertos de vagem

formam frases soltas

dentro do prato

tirar os fiapos

morder a carne tenra

com legumes

as mãos cheiram

tangerina

e tinta de caneta

descascá-las

e comer gomo

por gomo

as cascas se combinam

com a tinta exalada

do jornal de terça-feira

políticos

anúncios assassinatos

sem fim nem começo

ciranda econômica

carrossel sem fim

domingo segunda terça

uma ventania

sem bordas derrubou

um barraco no morro

e deu o campeonato

mundial de vela

a um sueco radicado no brasil

 

Poema para os dentes

Um deles cairá um dia

irônico

dentro do prato de sobremesa

num jantar de cerimônia

Os que mordem o lobo da orelha

Os que rasgam o bife Os que impedem

que a língua

se torne uma gravata

Outro deles cairá teórico

sobre a mesa

durante uma defesa de tese

Os que partem

o lábio Os que enriquecem

os dentistas

Os que ainda assim

sorriem –

Todos eles se vão

um dia

a menos que a boca

se feche antes

 

Teoria dos conjuntos

Este poema

pertence à rua

de calçada irregular

atravessada

na tarde

do tráfego

de um dia

de inverno

enquanto

folhas

rodopiam

no escapamento

 

 

Motivo na areia

Não por sestro

ou sequestro

nem por gozo

ou espasmo

nem misterioso

acordo

O gosto do sol

na espuma

dragando a bruma

A Cor do sal

Adiante

na amplidão

um ponto

 

Cozimento

Ri o poeta

vindo da cozinha:

"adivinhe o que acaba

de sair do forno."

"Pães de queijo?"

"Não.

Um poema."

 

M. S., Quarenta e tantos anos

Maria do Socorro

lavadeira

do morro do rato molhado

já não sabe quantos anos desceram

e subiram

essa ladeira

Maria do Socorro

encontrou uma felicidade

na página cinco da revista carinho

quando leu que a Maria da novela

terminaria

no capítulo trezentos e dezesseis

se casando com o Ricardo

filho do todo-poderoso-dono

de uma multinacional

 

Invernos

Às vezes cresce uma primavera

no meio da página

e do galho de um limoeiro

um pardal

ouve os esses assoviarem

a passagem da brisa

Desce uma chuvarada entre vírgulas

Às vezes a página é um horizonte

entre os cotovelos

e a vogal maiúscula do sol

doura

arrebentando a mesa

Mas quando a folha vira

e cai

já vem chegando o outono

 

Primavera

A primeira manhã do verão

que se aproxima

zumbe no ventilador

Às vezes pousa um avião

A geladeira espanta a mosca

da penca de bananas

e retorna ao sono

Esta manhã não ouve

sino pêndulo

ou grito

mas escuta a vizinhança

acertar o nó da gravata

e bater a porta

E a mulher que parece lúbrica

sobre a cama

apenas dorme

 

 

Noturno I

A cama

esparramada pelo branco

e um odor retinto

no travesseiro

A longa viagem

Ondas

estouram distâncias

na órbita dos olhos

e nos pés

resfriados

 

 

Noturno II

A velha cadeira

escorada no muro de cal

virgem

guarda uma revelação —

seu estropiado relevo

derrama a lua

na face assustada

do quarto

 

 

Noturno III

Cinco minutos

para onze horas

O bule na pia

migalhas de biscoito

trilhas de guardanapos

e a aparição

encruzilhada entre a cozinha

e a sala

fazem presságios

O caminho do quarto

rabisca compromissos

na devassidão

do papel

 

 

Limbo I

O que orla em mim

nasce limbo no quintal

brota franja no jardim –

germinal

O sêmen original

seiva

em lacre translúcido

e forma semente –

verso em leito

seminal

 

 

Limbo II

cada sílaba

cada pétala

molda o verso e a mácula

na folha que acumula

o murmúrio –

brota colorindo

palavra

em cada sopro

pálido

a voz do hálito

aquarela – acorde do verbo

que nasce

gota a gota

no poema

 

 

Pegador

Com os punhos cerrados

na arena

a guarda erguida para a onda

Arrebentação Rocha

Cada braçada vence uma tempestade

uma correnteza A palavra

mesmo surrada

suada

se precipita no corpo a corpo

das margens das curvas das rugas

sob o sol

dentro da gaveta

 

 

Moto-contínuo para a cidade

A lâmpada de mercúrio adormece

A calçada varrida

A porta de aço

erguida Café com leite

leite

açúcar e café no copo

O sol move a coleção

de ângulos

e sombras

folhas cobrem vergonhas

na calçada

Guinchos

Freadas

Trinados

A cidade continua

na porta de aço

arriada

 

 

Entropia

Um riso

derruba folhas ressecadas

na goiabeira

Nas mãos moças nos pés mouros

os dedos confusos

ventam

sobre a mesa

Faz frio do lado de dentro

O ritmo do marca-passo

decai O fim do dia

se aproxima

deus sabe quando

deus sabe onde

Um pardal come bichos na goiaba

e dorme seco

sob suas penas

Os cabelos pousam plumas

no travesseiro

 

 

Paisagens para um eletrocardiograma

Entre as costelas e o pulmão, sob

influência da lua e da maré

sopra uma brisa

 

Dos picos, dos morros desenhados

no papel quadriculado, três suspiros

se precipitam na água quente do banho

 

Dentro do peito, um peregrino

 

Ele mal deixa o país natal, com

a flauta na mochila e pincéis na mão esquerda

para se esquecer, na curva

da encosta subindo a montanha,

do livro que explica detalhes

das anomalias na válvula mitral

 

Compartilhamentos [© Caio Meira]
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