Corpo solo (1998)

 

 

 

 

Nous sommes dans nos mains ou en plein océan

E. Jabès

 

 

 

solo para o corpo e o mar

1. percursos no interior da água

o mar, às vezes distante, na outra margem da rua, do lado de fora do olho,

tombadilho vagando popa e proa,

cruzando cardumes, algas, carregando sal para outros mundos,

outros dias o mar invade, empuxo que arranca viagens,

ondas e espuma na arrebentação das pernas,

dentro dos sapatos, inflando a camisa, a calça, dão asa ao terno, dão teso à perna,

erguem o abraço num horizonte que molha e orla,

apagam intervalos, separações, e fazem da erosão um gesto,

fundear, sem âncoras, sem escada,

escutando no raso da terra o trabalho da areia, a vigília da calçada, a canção do mergulho,

aprumando ventos que levam, trazem,

guardar na gaveta a tormenta, o maremoto, à espera do abrigo da hora

 

2. ângulos da mão para abrir a onda

mão para atravessar o mar, nadar o que ele tem de areia, resto de navio,

socorro que boia em garrafa, brilhos de sepultamento em relíquias,

seguir prodígios em gaivota,

aparar o rumo no marulho, conter o afogamento do braço,

aceno que fratura a vaga,

onde não há deserção, nem ferida estacionada na casca do olho,

somente o galope curvando o torso, aguçando a mistura de sal e carne,

pelo barulho dos músculos entreabertos escapa tensão e movimentos,

barcaça, prancha e jangada penetram o osso,

naufrágios rangem nas articulações,

e muito grito virando crosta na epiderme, de peixe, de homem, de concha,

até quando não existir atrito nem ficção, quando o corpo se lança e emerge

 

3. mar antigo

vejo em seu rosto os desenhos que trazem a montanha,

água e vento estourando na armação do riso,

contorções de onda nas fibras do pescoço, areia imprimindo tempo no anteparo dos olhos,

no golfo das mãos os passos da imersão,

outros homens e seus primogênitos sentaram-se também neste mesmo lugar,

nestas margens, sob este sol,

a mesma maresia untando anéis nos cabelos,

a sombra da rocha carregada de arrepio ganhando aos poucos o perímetro do cenho,

e antes deles, onde era o fundo do oceano,

ou quem sabe caminho de baleias, pouso de pelicano, palmeira, pegada de índio, e antes ainda, balanço de lava,

este momento, ao meu lado, dentro do meu corpo,

careta na boca do meu filho

 

4. geografia de um corpo na extensão da areia

tudo aqui circula e redunda, robusto e a pino, descalço borbulha, trabalha,

mesmo na areia, à margem do peito,

ou ainda descendo do ônibus, fazendo morro e gume, sedento,

rasante aquilino sobre a espuma, avoluma-se na veia,

medido em tórax, alçado em tônus, luzindo na coxa,

sela, força e lombada, vertente captando dia e noite,

despejo de cor e janelas que aproxima o sol dos regos, do torno, do íleo,

todo oco que funciona, abriga e expele, luta e respira,

resvalo de quadril, radiano, bissetriz, tenção e prumo na cor da pele, da orla,

água misturada no sangue, golfada,

lavado e banhado de sal, úmido de todo o mundo, das correntes, da brisa,

único e plural sob a luz do trópico de capricórnio

 

dois movimentos para um arrepio

 

1. versículos gemelares (gênesis)

para Luca e Felipe

num princípio não havia verbo, nem cisne, nem eco,

e era somente pele sob a face do abismo, fluido despertando tecido,

e as sementes abriram força e destino, primeira força no caminho da manhã,

e deu-se a luz entre pernas, e novamente, a fórceps,

e soprou-se fôlego nas narinas por onde passaram os gritos, o embaço dos contornos, a mecânica do olho,

e as superfícies esparramavam arrepios na ignição dos mundos,

e houve dobradiça, alavanca, roldana, terra se firmando para os pés, mãos prenhes de forma despejando resistência,

e o dia se encavalou na noite, quando tudo era solavanco, grito, esperneio,

e nunca mais houve o sétimo dia

 

2. but emily dickinson

sentada entre abelhas e pensamento, sonhando a luz que se encosta nos telhados e janelas,

divagando verde-árvores, amarelo-ouro,

cartões postais espalham pelo colo as beiradas e emanações à hora em que ela se espanta,

penso sua mão sem anéis, suas camisolas de seda, suas tintas,

todos os oceanos que não viu, as festas noturnas às quais não foi,

seu silêncio maciço e inteiro inquietando os vizinhos, sua reclusão sonora entre livros,

quando se deitava, quando acordava por nada em meio à noite, quando comia biscoitos com leite,

suas fases não bebiam brindes, gargalhadas, comenda,

penso a bunda, sim, a bunda branca de emily dickinson

 

peripatéticos, citadinos e vagabundos

 

1. velocidades para o passeio público

passo espremido entre paisagens, fibras de aço, dobra de carne, embalagens de plástico,

entre rostos, jeitos, por bibliotecas de olhos, dentes e dedos,

coletânea afinada de afobamentos,

escuto o dia rebatido na retina sem pressa,

no claro, na sombra, solavancos desaceleram as pernas,

um pico de morosidade assalta-me o torso, desoculta intervalos, espaço de praça e beco,

uma fratura revela o raro, a centelha,

mosaico de ímpetos, raso e tropeço,

entardeço, cromando, no espessamento das costas e do peito,

deito-me panorama sobre o cimento, com rachaduras, com as fintas, traçado de relentos,

abro clareira e fôlego cosendo luz em gente e rua,

ventania sentado num banco, lendo

 

2. tarde esculpida no rosto

fachadas correm por minhas pernas, no ritmo do sangue batido no passo,

contenho a colisão, o encontrão do ombro com o dia,

começo um arrastão no meu pulso,

sotaques fremem na curva da bacia, sedução e apetite para a mão,

passando, esqueço alvitres em copa de amendoeira, em rococó de portão,

ganho volume no rádio, alargo-me entre arcos e becos,

alterno minha altura com a da calçada,

andaimes e ninhos abraçam, estendem, e me cospem entre os automóveis,

encontro o recuo, o fausto, considero o bueiro, o incauto,

invento desvios e ruelas, promovo rompante e impasse,

arquiteto desses pasmos, caminho por tragos e resvalos, retendo na pele o que largo,

assino contrato com o vão

 

matérias do escuro

 

1. sólido como a noite

negror, lua fechada, imobilidades avançam sobre o diafragma,

ruídos de um conto noturno abafados sobre o travesseiro,

a parede experimenta o corpo, massa quente e sanguínea arregalada sobre a cama,

segredos espreitam na calada da porta,

ou lá fora, escancarado e seco,

arrepios reverberam alarmes por lâmpadas e vidros,

barulhos de coldre e coturno atravessam o asfalto,

remoção cirúrgica da evidência lavando a madrugada,

ou o lodo bem fundo na lagoa, braços e pernas anônimos sobre as pedras,

transeuntes engolem breu na areia da praia,

um silêncio corta a cidade no porta-malas de um táxi,

enquanto súbitos ruminam o sono antes do dia acordar

 

2. física experimental (ou um bilhete suicida)

pela escuridão, no acaso de um ponto em meio à claridade elétrica da página,

infinitas vidas podem passar: retas, cortes, a sentença derradeira,

ou o grito espatifado ao cair do sexto andar,

sorvedouro dos mundos possíveis na tangência da palavra morte,

nos alicerces do corpo, o sismo interior,

a mão desgovernada sondando cada vertigem, cada tentação,

e tudo o que ficou ileso entre as funções orgânicas, na maquinaria arraigada do fôlego,

sintaxe do motim, à proa do vácuo absoluto,

percorrer o limite da implosão,

em busca da fração de quietude comprimida nas costelas,

o múltiplo incomum, vetor do empuxo onde me deito,

desmesura encorpando o vazio, rarefação do instante em movimento

 

uma estação em paris

 

1. gare du nord

algo para se fazer da vida: meter uma bala nos miolos, tragar assombros no haxixe,

correr nos trilhos a expansão do meu extremo, a insensatez dos meus fluxos,

embebedar-me entre putas e baratas num hotel sujo,

angariar passagens de ônibus e avião em leito de viúva,

subúrbios, confins, todo lugar ensolarado, toda casa ventilada pelo mar,

em multidão, repleto de calor, ou num bar de quinta categoria,

sem trancas nem baús, sem sanidade nem acúmulo de papéis,

conseguir cuspir enfim o pigarro sedentário,

deserção, aridez, desperdício: ofícios para cavar algum destino,

para alcançar a efervescência, ou o limite da perna,

valer-me da fome, do ócio, da fuga

e do charme tranquilo de estar sempre chutando o pau da barraca

 

2. gare de l’est

possuo somente o que me carrega:

becos, meandros, tudo o que circula e viola a trava dos sentidos,

mesmo entre meus semelhantes, ou do lado de dentro dos olhos, anônimo e evadido,

não me contagio onde não cabe o volume do meu risco,

copos de cerveja não me deixam rastro,

subsisto nos arredores do que digo e do que penso, na tensão de cada ferimento,

não volto atrás nas cicatrizes, nas tatuagens ou nos dentes que já se foram,

amigos à deriva me servem de salvo-conduto,

pego o abrigo da hora instável da madrugada, entre os que se expõem no exterior dos muros,

aventura e composição de desatinos,

meu rosto, remoto, anuncia a ânima dos esquivos,

com o mar e a rua, com o mato e a montanha, frequento a escavação dos meus despojos

 

dissecando a vulgata

 

1. introdução à ciência do afago

precisa-se de todo o corpo para vê-la, junta, prega, sobra e perícia nos movimentos de investida,

desde o cerco e por toda a aventura, por panos e botões derrubados,

a cada palmo de conquista,

escondida e vaga por todo lado,

espremida, meio besta e deslocada, de cabeça para baixo, malhando na praia ou fazendo alongamento na academia,

seu cheiro reservado escapa às vezes pela axila e se solta, ácida,

alivia-se quando enxaguada, no banheiro ou na cama,

maior que a carne e as dobras, muito mais que desenho e ornamentos, além do vazio que recebe e expulsa,

um grito cedido na tarde exulta

 

2. ladies room

aos saltos, alternando alegres o assento,

quatro delas dizem e riem sílabas de água:

líquido quente que vaza pela válvula, passagem de perfume em cascata, esguicho da pálpebra vermelha,

na fala interina, emoldurada na louça e na maçaneta,

rijos chiados encharcam as paredes, recortam e eriçam o espaço, descarregam toda a casta de respingos,

paisagem crespa e erguida por azulejos onde o arrepio esbarra,

ávidas e superpostas, entreabertas, confessam e cheiram destemperos,

contam o emaranhado esquecido do olho, guardado para as dobras do lençol,

corredeiras que se crispam na surpresa do intruso em audiência

 

prosa do chão

Há várias maneiras de um homem rachar

F.S. Fitzgerald

1

caminho entre o olho e paisagens: mundos de ferro, camadas de sal, escoadouro e fonte de relevos

visto-me de retiros

tenho dedos pobres em anéis e bênçãos

na língua, repleta de ermos, o impronunciável gosto da proximidade

meu corpo estrangeiro só pede o remansado dos ossos e meia colher de calor para o estômago

posso acolher sem dor o arcabouço do espinho ou o arranque secreto do riso

minha geografia remota permite burilar o espaço entre as mãos: lampejo, mina

 

2

não sei mais por que rua crescer

se me alongo no engenho do pavimento ou no esquivo do beco

se demoro destrezas à luz do dia ou me turvo em canhestro

vacilo entre surdinas, entre portas e janelas, precipitados do sangue e da tinta de jornais

ladeiras galgam e declinam meu olho, túneis correm e recuam de meus pés

em minha roupa, feita de colisão e embaraço, a marca hasteada da batalha: desenvoltura do asfalto

 

3

em cada corpo, um afluente

todo álcool me dilata e espalha, pulso

sabor, margem, meus pés em dança volátil

procuro olhos e manejos que deem iminência e voo ao gesto sólido

posso avançar por sinapses, por dobradiças da língua que dizem meu estreito, por vesgos que multiplicam a extensão do meu abraço

abarcando o longo da noite, o dia infestado e difuso no hálito

 

4

concebo um corpo de acolhimentos

abrigo açodado, hospedeiro de praxes e uso

cadeira gelada de bar, calçamento de mármore gratuito: no couro e na carne espigados contra a grade, os ângulos da habitação

sobre meus ossos, dentro do quarto rangendo abusado, o peso improrrogável, a pronúncia copiosa e ampla das máscaras

de pernas abertas, retomo a viagem

 

5

sigo com o pó: tino de cinzas, manhãs do passo rachado

varro o silêncio do andar descalço, caminho de um desmoronar para cada dia

sina tosca, farpa

recolho indiferenças e resíduos de sorrisos

migalhas decompõem minha diligência

na carquilha do rosto, o dia rugoso convém de corpo inteiro: costelas e cotovelos, pentelhos e mamilos

percurso curvado do músculo

entre frestas e farrapos, conduzo a paciência de um ofício

 

6

perambulantes, os pés e o pulso palpitam na rua

tudo o mais, circula: demolições, quartos estilhaçados, gavetas que permanecem abertas

tangências se alastram entre passantes, coletando quadril, sombra, janela no décimo andar, ronco sobre o banco

cresço, quebro, rasgo

na calçada, antecedências e pedras prorrogam meu curso

vestígios calados, aos encontrões, rumam meu vasto

 

7

percorro o dia que meus olhos sujam

dia sem céu, meu corpo entroncado ao pé do muro

participo do que não tem dentes

recolho o que tropeça, o que rasga o dedo

minha fome possui abismos devassos

de manhã, meu fígado gela a calçada; a noite prossegue mordendo meu pulmão de granito

a rua que mora em meus braços tinge meu sonho de betume

cotidiano áspero, cimento: dicção das certezas esfoladas

a mão estendida prolonga vontades subterrâneas

folhas soltas de jornal ventam sobre meu desfecho

 

8

todos os que sorriem comigo nestas gengivas se foram

prossigo meu despovoamento

tudo o que vi se enruga: noite que baila, calça de algodão, o caminho lento dos ponteiros

a multidão me arqueia

minha voz, agora, carranca de assustar criança

no fim dos súbitos, esqueço-me de chamados, e de nomes a quem chamar

espero a calma das misturas

 

9

nunca estive tão próximo de meu olho

nunca estive tão dentro de minha boca

nem tão perto das unhas

junto aos ossos

aos dentes

terminada a distância

findo o contorno

um pouco campo, um pouco tronco, um pouco muro: tornado lugar, deito-me chão

meu movimento, sem casa nem porta, ânimo fundo, dissolve-se sólido entre pedras e entulho, vizinhos em esquecimento

sem rua, sem verbo

indefinindo

 

Compartilhamentos [© Caio Meira]
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *