Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer (2003)

 
 
 
 
 

Epidermática

 
 
We are all sculptors and painters, and our material
 is our own flesh and blood and bones
Thoreau
 
 

close to the bone

 

acordo e durmo debaixo da pele, sobre a crosta da terra, com camadas de cidade enterradas

movimento películas e superfícies entre outras películas e superfícies quando saio à rua, ou quando me encosto no parapeito desta janela que se despede da noite

acordo e durmo entre membranas impalpáveis, com enzimas, autor regulações e imponderáveis combustões

metabolizo rostos e teorias em meio à confusão de lembranças despropositadas, entre secreções sebáceas, tubos, alvéolos e histórias acumuladas

por vezes sinto esse torvelinho dentro da barriga, e não sei se é fome ou lembrança de fome, ou se são movimentos espontâneos da voracidade do vazio

nem sei que tipo de limite representa a pele, se me separa da madrugada ou me une a ela

se o frio que sinto nesse vidro me pertence ou sou eu que pertenço ao frio ou ao vidro, ou se o ponto em que tudo se entrelaça surge apenas para desaparecer

sei apenas que sou permeável a esta manhã que desaba seus vermelhos por prédios e morros, por muros e árvores

 

sob sol cerrado

 
o mesmo sol
aquece esta manhã de setembro e espalha uma secura inesperada por superfícies vivas e mortas
dizem que não chove por aqui há mais de cinco meses
com a umidade do ar abaixo dos 10%, com a grama tão ressecada, à beira de tornar-se palha, espero neste gramado por alguém que não vejo há tantos anos
sob este sol
passo desidratado fazendo a corrida diária, ou abro o capô do carro para pôr mais água no radiador, ou espero o sinal verde para seguir com a vida
mas não adianta
agora falo como se viesse de parte alguma
música, língua, cor, pele, terra roxa dentro dos pulmões, talvez o caminho que as pernas um dia fizeram nesta cidade
as direções que as coisas tomam numa praça ou numa rua distante
mas o sol é o mesmo, astro indiferente queimando sua órbita sem fim
o mesmo sol inunda o nômade atravessando o deserto de Mojave ou apodrece a perna de um escritor entregue à morte na fronteira da Tanzânia com o Quênia
em Botafogo, na arquibancada à esquerda das cabines de rádio do Maracanã, em réstias, sufocante dentro de uma cela em Bangu 2
no carburador que fuma, na clorofila erguendo este ipê amarelo ou na vitamina D que garante firmeza para o colo do meu fêmur
para caminhar ou apenas esperar em pé
o mesmo sol desperdiçado no topo de uma montanha solitária (avistada daqui através de um cartão-postal)
é melhor procurar um bar e pedir um copo d’água
antes de me entregar à sequidão ambiente
que esturrica os cabelos, faz estalar os joelhos e torna mais árida uma espera
antes de ver no jornal da noite os redemoinhos de fogo cortarem o planalto central e os demais modos da presença solar
nos tijolos, nas telhas de amianto, nas caixas d’água vazias, no nó da gravata afrouxado durante um café suarento no mercado central, na gema do pequi exalada ao lado de cajás-mangas verdes e lavados para se comer com sal, no pouco reflexo da água suja de um tímido lago, último refúgio de cisnes improváveis e encardidos
e mesmo à noite no zumbido do ventilador que espalha ar quente pelo quarto
aprender com o sol e não alimentar falsas esperanças
ninguém virá emergir da memória para retraçar horas perdidas
todos foram queimados, esquecidos, rotos, esquartejados
alguns podem estar mortos, mas não fui convidado a nenhum sepultamento
os que permanecem vivos ignoram solenemente a profusão de praças e ruas que desembocam neste momento
nem se importam, nem se enfadam, nem se movem
pegar um punhado dessa mistura de mato seco, poeira e formigas, cheirá-la ou talvez comê-la, não significa ficar mais próximo da terra ou da gente
em órbita distante, a anos-luz do calor que vibra esses ossos
 

entre-fôlegos de um basqueteiro solitário

 
quinze para as duas da tarde
na trajetória indefinida da bola, um voo cego de ideias inacabadas quicando no chão e nos muros
ah!, se não tivesse quebrado tantas promessas de intimidade, ou não faltasse aos encontros e aos riscos
talvez fosse milionário e igualmente descontente, talvez estivesse feliz criando cogumelos em Nova Lima
não tenho radar para me guiar no escuro, e na claridade desta tarde orientes e mitos surgem ofuscados
sobram contornos, arestas, rugosidades
e entre uma linha e outra, inúmeras e imprudentes lagartas esmagadas
e entre o chão e o aro, o peso e a circunferência onde me arremesso
talvez eu deva jogar na mega-sena acumulada
e se ganhar aquela bolada (ah!, se ganhar aquela bolada), ir rifar o dinheiro com as putas parisienses, subornar um senador da república ou patrocinar cocaína para os amigos
mas o que pode restar de alguém que um dia ganhou tantos milhões de dinheiros
poderá caminhar à tarde, pegar o metrô em Botafogo e ir ao centro da cidade procurar um livro no sebo?
poderá dormir no ônibus, com o rosto encostado no vidro, e não saltar no ponto de descida?
perder-se, sentir fome, carregar silenciosamente uma hérnia de disco, ter um pâncreas ectópico, uma esofagite de refluxo
não sei por quanto tempo os joelhos vão suportar todos estes impactos
há tantos arremessos, encontros, chutes, medidas
e coisas sem sentido que me compõem, habitam os passos e os intestinos
há ainda muito a fazer
escutar cantores populares que veem deuses todo santo dia, ou comem pentes, ou decifram o mistério das pirâmides, a configuração das estrelas
não para tentar responder ao tabloide inglês qual o sentido da vida
pois essa é mais uma coisa que você pode perguntar ao primeiro cachorro na rua que ele vai lhe dizer
 

…mas prefiro ficar calado

 
nesta manhã de janeiro, pesa-me o peso de todas as coisas, com os olhos ainda embaçados de sono, os ouvidos guardando a acústica de silêncios, e a boca, a língua, a saliva, as fibrocartilagens, a glote, os uivos, a janela fechada, os retesamentos, o bolo alimentar, os movimentos peristálticos, a pirose, a ânsia, a fôrma da bacia persistindo na espuma, a estridência do rádio relógio, o arcabouço do teto, e demais zumbidos que instigam o nervo motor da laringe
esparramado entre vetores de força, decisões se misturam às dúvidas, ocupar determinada posição na cama, mudar de bairro, frequentar universidades, gafieiras, bordéis, analistas, atravessar a casa, lidar com as coisas domésticas, voltar a dormir ou ir para a rua ver o primeiro sol do dia, abrir bem os braços, estufar o peito e inclinar a cabeça para trás, em meio à poeira e o vento, e sentir, na coluna vertebral, o deslocamento simultâneo da minha vida
que importa a neurose, a escoliose, a miopia, os atos lerdos ou incisivos, a marca do mercúrio no termômetro, ou as fases da lua, se estou inapelavelmente nu, sem ruído, sem sorriso, sem proeza, apenas unhas e cabelos transitando de modo esporádico entre projetos de viagens, de vacinas, de farras, de livros, essas coisas que já nem impressionam os amigos em mesas de bar ou ao telefone
num desses dias eu paro de nascer sem mesmo ter tempo de improvisar qualquer lápide ou discurso, e mesmo se eu tiver uma caneta bic no bolso e um guardanapo ao alcance da mão, mesmo se eu tentar ficar de bico fechado, desviar o olhar ou apenas sorrir com simpatia, mesmo que eu invente um compromisso inadiável com um fiscal da prefeitura, mesmo mordendo a língua, esperneando ou abjurando a minha estirpe, as coisas vão estar resolvidas, agudamente, e quaisquer que sejam os números da soma de meu nome (de fato, será indiferente o fato de ter ou não um nome), já estarei na companhia dos demais canalhas
 

ornitorrinco

 
tem aquela vez que imitei um macaco para arrancar a primeira gargalhada dos meninos
tem o tiro passional, a quantidade de chumbo na água, as anotações rabiscadas de madrugada no caderno verde
tem um cara discursando sobre um caixote numa praça de Londres, outro acaba de afirmar na televisão que tudo é química
tudo é beijo, coxa, intriga, números de telefone esquecidos, sonda orbitando outros mundos
ou tudo poderia ser geografia, economia, ortodoxia, taxionomia de órgãos propulsores, um apêndice supurado, configurações cervicais, o mapa da vida estampado no consultório de um japonês, no centro da cidade
tem todas as aberrações costuradas de modo a parecerem uma obra de arte, mas que são, sobremaneira, inverossímeis
até agora, o destino me tem sido maleável, e junto à mandíbula e ao esporão, junto ao pavilhão auricular a essa altura entorpecido por buzinas e alarmes contra roubo, junto aos molares, cabem dores lancinantes e o desopilar de uma gargalhada
cabe tudo o que entra pela janela do olho e se amontoa com as transcrições, edições de revistas folheadas em sala de espera, diferentes versões de uma mesma sonata de Beethoven
cabem até os estampidos que ninguém ouviu (a árvore que caiu sozinha no meio da floresta) e listas intermináveis de tudo que faz mal à vida
um dia, talvez se chegue à conclusão de que a vida faz mal à vida, e só seremos socorridos por essas coisas de origem remota e misteriosa
esses cachorros equívocos que atravessam cidades e voltam para casa, ou a coordenação das revoadas de pardais às seis horas da tarde
e demais gestos peculiares de todos, híbridos de tudo e de nada, à proa de vontades subcutâneas, pormenores do jogo de forças macroeconômicas (sobredeterminados por uma jogada da bolsa de Cingapura)
e se decidirem que a vida faz mal à vida e o mundo estiver por um fio (se digitados os códigos certos), pelo menos deixem-me perpetuar o segredo de algumas misturas
 

pequeno sutra da mais completa ignorância

 
não sei migrar para o sul quando chega o verão, nem caminhar sobre o carvão em brasa
carroças já não passam por minha boca
desconheço regras de retórica, o manejo de sombras, tipos exóticos de peixes, datas e aparatos de cerimônia
sei que tenho 32 dentes, leio livros e jornais, vou ao mercado e ao cinema, escuto música clássica e popular, e posso dizer de cor os números dos meus documentos, além de uns poucos poemas aprendidos há muito tempo
teimo também em me lembrar dos conselhos dos amigos, que permanecem vagando desacertados entre frases que de algum modo saltam prontas de minha garganta
não posso, apesar de grandes esforços, distinguir o fútil do necessário, o que me vale tantas horas misturando fadiga e prazer
nenhum balanço pode ser feito 
apesar de meus olhos e meus pés se considerarem autossuficientes na avaliação das distâncias, acabo sempre por tropeçar numa pessoa ou numa pedra
 

discurso afásico no centro da cidade

 
essas perturbações chegam por todos os lados e meios
a garganta sempre interrompida por alguma pancada, os olhos abalroados nas calçadas, as vitrines interpondo luminosidade e temor
não, nenhuma imagem poderá reter, e permanece desarticulado sob a língua, e se subtrai das fotografias ou vaza de qualquer disposição solidária
padeço dessa incerteza primitiva, deambulando da suspensão de qualquer afirmação à remitência da frase dos populares oferecendo suas bugigangas
por que efeito ótico, por que alteração mórbida, por que afecção sonora essas disparidades me conformam
eu poderia não ter um olho, ser banguela, maneta, capengar, mijar sangue, ter estigmas pelo corpo
poderia comer vidro, iludir passantes, fazer embaixadas ou simplesmente afixar num pedaço de papelão os garranchos da minha biografia
por vezes a coisa é simples e basta querer, basta anunciar, basta um gesto ou produzir qualquer sinal compreensível para ser inserido na vigência ou no refluxo da multidão
mas não, os rumores são logo abafados, dependurados do lado de fora das bancas de jornal, apregoados em panfletos que não sobrevivem por mais de dez passos
e a indignação comentada nas filas dos caixas, o suplício público dos pedintes, a reverberação do calor corporal ou apenas a deriva transeunte da tarde de segunda-feira, todo clamor encontra, em meio a seu mutismo, sua consumação
 

coisas demais

 
abrigar (rostos de nomes, ruas de lugares, cidades de casas, livros de frases), ordenar, comer, dar os telefonemas necessários, ter uma paixão transpirando em algum ponto do mundo e do corpo, cuidar do corpo e do mundo, corpo subsistente em determinada posição, a salvo ou na mira de algum perigo, mundo exibido aos sentidos em diversas superfícies luminosas, cortinas de som, suavidade de um tecido, mas um mundo sempre local, parcial, limitado pelo alcance e pela vontade do encontro, então necessário
sentar-se nalgum ponto implica calar muitas vozes prementes, emudecer timbre, espessura, comprimento, sufocar aflições que partem de pontos limitados e parciais do mundo, seja em qualquer dos lados da epiderme, seja convertido em fluxo sangüíneo e contração muscular, seja uma suspeita, um sussurro entreouvido ou pressentido, vindo, em aparente paradoxo, de parte alguma, de um ponto vazio, onde não se pode sentar-se, nem mesmo calar
ou dirigir-se, ou imprimir-se, tomar pulso, dar vazão a um aguilhão (escolhido, sabe-se lá como, de dentro do tumulto), o que implica em certo alívio, embora temporário, na pressão do sistema, marcando a passagem do corpo pelo mundo, marcas anotadas, lembradas, revistadas, e que por serem assim tão preservadas se tornam partes efetivas do corpo, apêndices entre o corpo e o mundo, órgãos oficiais dos movimentos de felicidade
ademais, a contrapelo de qualquer utopia, não há confim possível, nem mesmo um fim possível, que não seja o fim de todas as coisas, o apagar definitivo de todos os mundos e todos os corpos, um armagedon particular das forças instiladas nas fibras, do curso dos fluidos, das conduções elétricas que permitem erguer um copo ou evocar um rosto e ligá-lo a um nome
ademais, à proa de qualquer profusão, viver implica esquecer a maior parte dos rastros e concentrar-se no balanço imediato do corpo, nos afagos, no júbilo de ver, toda manhã, a geografia e a história do corpo se reconstituírem no mundo, a musculatura se redesenhar diante do corpo da mulher, que se mostra, que se amplia, que se abre em pernas, cheiros e líquidos
 

se não fosse a Sorbonne e o sabonete para pele macia

 
1.
repetidas vezes, AVL quer ser poeta: vem com aquelas palavras asseadas, que não mijam em banheiro público, dobras de panos que não arrastam na lama, incutidas por unhas que nunca estiveram atochadas na graxa
quer encontrar a frase iluminada, mas não por lâmpada de supermercado ou lanterna halógena raiovac, quer a luz escoada em página de livro, em cidade desaparecida, cintilação interior, como ela diz
ela é sabida, visita paris uma vez por ano, tem a última versão (importada) da ciência estética, estudou oito anos de piano e não escuta música popular há muito tempo
apesar de craque em lítotes, dáctilos e trocaicos, recusa-se a se debruçar sobre as bielas e o diferencial que fabricam o movimento do seu carro
vou dizer a ela: quando o motor não quiser pegar, você vai acabar tendo de mostrar a bunda pra galera
(AP depois comenta que AVL seria escritora se não fosse a Sorbonne e o sabonete para pele macia)
 
2.
 
AVL argumenta que motor de caminhão não é coisa feminina, prefere botinhas, chapéus e a pronúncia correta des habits de fin de siècle 
sei lá, o que pode ser mais feminino do que um maverick 72, verde-abacate, com o radiador furado (no porta-malas, uma garrafa de plástico cheia de água da bica para completar o nível a cada parada)
o feminino não anda assim em dicionário, nem nas declarações apimentadas em página de revista, nem em tese de faculdade 
eu vi o feminino outro dia, na TV, quando B. reclamava que há muito tempo não lhe passavam a mão (fiquei sem saber se é ela a dona do maverick)
ou quando FB me disse, na beira da praia, que sexo é tão bom quanto pão de queijo e água de coco
 

Outras vidas, a mesma

 

No vão da madrugada

 
1.
À distância, vejo, ela se coça. E se toca. E se roça. E se explora, em tudo distraída. Uma apostila indecifrável troca de mãos. E a outra mão, a vaga, tateia a virilha, o umbigo, a batata lisa da perna, sente o tecido da calcinha, a alça branca sobressaída, a aspereza possível da sola do pé (amanhã de manhã, talvez, mereça a lixa). De vez em quando, quando levanta, para buscar água, eis que a bunda abocanhou o tecido: precisa então retirá-la, folgá-la, cobrir de novo o rego e voltar a ser, caseiramente, casta. Logo torna a sentar, uma perna aberta, abraçada à coxa. Lendo, ainda, continua a se percorrer sozinha, estendendo a superfície externa enquanto fica mais íntima do texto. Já é tarde, porém. Boceja. Fecha as páginas. Olha o infinito. Acho que nem me adivinha. Levanta-se e, de frente, descaradamente, abaixa o sutiã por inteiro, ajeitando-se para dormir. Olha os peitos, miúdos. Alisa a barriga. Volta o sutiã ao lugar mais exato, mais correto, de um suposto conforto. Então sai do quadro da janela. Por uns minutos, fica o cômodo vazio (mas cheio de expectativa). Volta com um lençol fresco, dobrado, passado, que cheira. Lavanda? Abre o lençol sobre o sofá-cama. Caminha até a porta, dá mais uma volta na chave. Ajeita de novo a briga da bunda com a calcinha. Na parte da frente, suspende o tecido, como se fosse para permitir uma respiração. Boceja. Vai até o interruptor. Por alguns instantes, não faz nada. De pé, parada, não se move. Depois, tira a calcinha e a coloca sobre a mesa. Mas não passa a mão na pentelheira. Não conserta nem mesmo um pelo de seu desacerto, da selvageria negra. É a única coisa indisciplinada na figura, sob a luz da lâmpada solitária que pende do teto. A única revolta. O resto está acertado, liso e sem interrupção. Só ali é que não se escorrega, é que tudo para. Boceja. Por fim, apaga a luz. E faz do negrume que era apenas um ponto devorar todo o quarto.
 
2.
À distância, ele me vê, e eu me coço. E me toco. E me roço. E me exploro, em quase tudo distraída. Troco, indecifrável, uma apostila de mãos. E com a outra mão, a vaga, tateio a virilha, o umbigo, a batata lisa da perna, sinto o tecido da calcinha, a alça branca sobressaída, a aspereza possível da sola do pé (amanhã de manhã, talvez, mereça a lixa). De vez em quando, quando levanto, para buscar água, eis que a bunda abocanha o tecido: preciso então retirá-la, folgá-la, cobrir de novo o rego e voltar a ser, caseiramente, casta. Logo torno a sentar, uma perna aberta, abraço a outra coxa. Lendo, ainda, continuo a me percorrer sozinha, estendendo a superfície externa enquanto fico mais íntima do texto. Já é tarde, porém. Bocejo. Fecho as páginas. Olho o infinito. Acha que eu nem o adivinho. Levanto-me e, de frente, descaradamente, abaixo o sutiã por inteiro, ajeitando-me para dormir. Olho os peitos, miúdos. Aliso a barriga. Volto o sutiã ao lugar mais exato, mais correto, de um suposto conforto. Então saio do quadro da janela. Por uns minutos, fica o cômodo vazio (mas cheio de expectativa). Volto com um lençol fresco, dobrado, passado, que cheiro. Lavanda? Abro o lençol sobre o sofá-cama. Caminho até a porta, dou mais uma volta na chave. Ajeito de novo a briga da bunda com a calcinha. Na parte da frente, suspendo o tecido, como se fosse para permitir uma respiração. Bocejo. Vou até o interruptor. Por alguns instantes, não faço nada. De pé, parada, não me movo. Depois, tiro a calcinha e a coloco sobre a mesa. Mas não passo a mão na pentelheira. Não conserto nem mesmo um pelo de seu desacerto, da selvageria negra. É a única coisa indisciplinada na figura, sob a luz da lâmpada solitária que pende do teto. A única revolta. O resto está acertado, liso e sem interrupção. Só ali é que não se escorrega, é que tudo para. Bocejo. Por fim, apago a luz. E faço o negrume que era apenas um ponto devorar todo o quarto.
 

Fora de lugar

Ao entrar no banheiro, ele acende a luz e nota, na beirada da pia, a escova de dentes dela. Jogada, fora do devido lugar, do copo compartilhado com as outras escovas, a escova estava, porém, no lugar de hábito, pois ela nunca a punha em seu lugar. Mas ela não estava mais lá, e a escova não devia estar em seu lugar, isto é, fora de lugar, e sim estar no lugar devido, no copo das escovas, onde nunca estava. De dentro de sua ausência, da falta que ela fazia, porque estava fora da casa, fora do lugar em que deveria estar, sua escova fora de lugar, marca do seu descuido, a repunha no lugar que era o seu, caminhando entre essas paredes, deixando as luzes acesas, perdendo as chaves, largando papéis na mesa dele, migalhas de biscoito no teclado, copos de café por todos os cômodos. Fora de casa, a casa ainda obedecia à sua desordem. Na ordem dos seus descuidos, na desarmonia que os alinhavava ao chão e às paredes, uma escova de dentes já gasta confundia o dentro e o fora, fazia do íntimo um avesso que, àquela hora, caminhava entre outras paredes, esquecia outras luzes acesas, perdia chaves de outra porta, amontoava outros papéis em outras mesas, largava migalhas entre letras alheias, ou quem sabe nem mais comesse massa, talvez tivesse largado o café, ou tenha começado a beber, mas era certo que ainda escovava os dentes, e que devia deixar a escova fora de lugar, o que, de certa maneira, fazia que ela não estivesse totalmente onde estava, que sua boca continuasse ali, com ou sem farelos, batendo a escova três vezes na beirada da pia e, metodicamente, se esquecendo de colocá-la em seu lugar, mas a colocando, de fato, no lugar que era o seu, no seu desacerto, que tanto e tão pouco convinha àquela casa já sem paredes, nem portas, nem luzes, nem chaves. 
 

De como e quando se descobre uma falcatrua

 
Maio acontece em seu corpo, enraizando-se, enchendo suas pálpebras de azul e de frio aquoso. O grito mais moderno, propagado por alto-falantes e em letras garrafais, ainda vibra em seus tímpanos: não, ele não deseja comprar nada, não quer saber das teorias da apropriação, nem da atração do metal e das demais virtudes capitais ao sucesso. Quando perambula pelo centro, como agora, mesmo parando de vitrine em vitrine, quer mais é perder-se entre cores e formas, infiltrar-se de abismos. Está certo, quando finalmente chegar em casa, terá de fazer isso e aquilo, consertar a dobradiça da porta, digitar a cota de todo dia, cada toque vale R$0,007, distribuir broncas e beijos entre os filhos, preocupar-se com o não-andamento de teses, livros, resenhas e demais promessas. Na rua, porém, o caminho mais longo entre dois pontos é sempre uma manchete revoltante, uma nova edição da senhora H., um cabo de guarda chuva diferente. Entra numa loja e pergunta se tem o CD novo da Suzanne Vega, ou um antigo da Diana Krall; não, não tem, já sabia disso. Ele até deseja comer uma esfirra, tomar uma coca-cola, mas está tentando fazer uma dieta, perder 5 quilos. Passa direto. Pensa que ter fome por algumas horas é até divertido, pois dá para sentir o estômago vivo. Enquanto caminha, vai repassando na cabeça algo que pretende escrever quando chegar em casa:
 
maio entreaberto num dia de chuva (esse é o título)
nada além do tempo me procura
sentado num banco num afã do centro da cidade
a contrapelo da balbúrdia, do ruído das entranhas, minhas ou do metrô
nada me perfura, nem astúcia ou turra
só o murro lento do que passa e acumula no bulício impalpável de vísceras
e nas tábuas verdes atravessadas sob as nádegas, a sustentação dos ossos e dos músculos encorpando o vazio
nada me distingue do pleno, do jorro de pedra da boca dos leões
desertado de gente e carro
nada me enxerga em ambos os lados da retina
nenhum susto nem intercessão entre ritmos de rodas, de asfalto, sêmen e de lixo atirado na calçada
nada perdura, arvorado, neste banco pintado de verde
só a chuva
mas que importa, trajes, carapuças, tatuagens, certidões, constipação ou a cor do desalinho
mas que importa a memória e suas pipas, balões, livros já sem sabor
a empunhadura genital
nada conspira, nenhuma trama
só mesmo a água
e a ínfima areia passageira do vento
 
Mas tem dúvidas, fica pensando se não está lírico demais, fundado em imagens, e ele está fugindo de imagens em poemas, anda atrás das coisas mais palpáveis, sólidas. Quando chega ao edifício Marquês de Herval, resolve dar um pulo no Berinjela, ver se tem a Carta ao pai do Kafka. Um dia ele também vai ter de escrever uma carta a seu pai que, apesar de morto, ainda o assombra. Não tem. Espia entre as novidades. Não, alguém passou por ali antes dele. Sai. Subindo as escadas em caracol, outro fragmento lhe vem à mente, daqueles que não se resolvem, mas que também assombram (talvez ele possa inseri-lo em algum lugar):
 
dentro do ônibus que atravessa a Rio Branco
dentro da velocidade e da freada
dentro do troco
acordado, alimentado, envelhecendo com todas as juntas, com as arruelas, com a napa preta do banco
com o braço cansado do motorista, com a estridência do motor
em rotação e translação
até chegar à Praça da Bandeira e incerto descer 
vendo o ônibus se afastar
separar-se de meus sentidos
do fígado, dos intestinos, da digestão e da fome
e caminhar a pé até em casa
 
Quem sabe se entrar de fato num ônibus na Rio Branco, qualquer ônibus, sem se preocupar com o destino, ele consiga continuá-lo, ou abandoná-lo de vez… Só então se dá conta da incongruência: quem pega ônibus na Rio Branco não pode estar indo à Praça da Bandeira, pois é a direção oposta. Apesar de parecer pouco importante, isso o incomoda. Quando foi que inventou um absurdo daqueles? Para ele, é mais uma prova cabal de desonestidade, de que precisa ir mais fundo, cavar nas entranhas algo mais genuíno, que não pegue um ônibus inexistente, que não tome uma direção falsa. Então entra num táxi e diz ao motorista: “Praça da Bandeira, por favor.” É a sua maneira de ser mais honesto.
 

Empirismo na Zona Norte

 
A alternativa que ele encontra é atravessar o túnel Rebouças. Com tudo socado num caminhão, vai parar num predinho pichado e de esquina, sem porteiro, elevador nem garagem. Instalado, caminha pela vizinhança, decora o nome de coisas e gentes, come porcaria nos botecos locais, faz a ronda dos comércios. Deixa os barulhos sobreporem suas camadas de gritos ouvido adentro: o cara da frente que põe rádio e televisão bem alto na calçada, o garoto de baixo que só escuta heavy metal no último volume, a igreja do bairro que badala seus sinos inapelavelmente às seis e meia da manhã, o mascate de pão-doce e sorvete, só paga um real freguesa, que com seu megafone faz ponto diante do portão todo santo dia. Apesar de a rua ser pequena, não tem como ficar à parte do volume dos motores: por alguma razão, os caminhos que levam a Roma passam por ali, a gente que só anda vociferando passa por ali, as crianças do mundo inteiro correm todas as tardes da professora de goela potente no pátio da escola do lado. Não, não dá para se livrar da lei da contiguidade. Ele desce à rua, negocia com o flanelinha local para não ter a pintura do carro arranhada, e tem de engolir o cara da birosca que coloca 50% a mais em tudo o que vende (e o pior é que vende de tudo). Querendo ser alheio, já se vê articulado num universo de síndico, bombeiro, carteiro, dono de bar, o cara da luz, o cara do telefone, o cara da água, o cara do gás, o cara da segurança, e mesmo aqueles que apenas cruzam a rua e nem olham para cima, e mesmo os que varrem a rua quase que em silêncio. Basta estar ao lado, basta estacionar na frente do portão, basta fazer omelete às duas da manhã, basta ter um cachorro pequinês, basta ter um problema no automático da bomba d’água, basta acelerar, ou frear, ou embrear. Lentamente, imediatamente, mesmo tendo a impressão de ser um corpo estranho, mesmo manejando a mão-dupla da rejeição, os lugares de conforto começam a aparecer. E num desses dias, ele acorda querendo colocar um som mais potente no carro. 
 

Venéreas

 
Non vi si pensa quanto sangue costa
Dante
 

the odd lady

 
minha boca larga, o nariz largo, a anca larga, o olhar largo, a calma larga, o passo
não, o passo esguio, o medo esguio (estampa do corpo), os ossos esguios, o sexo esguio, o negro, o rosa, o pálido, a demora tênue, o aperto tênue e túnicas, diários, papéis, baús, cartas escondidas, cultivar o jardim privado, a janela, o piano e meu quarto
essa intimidade exígua, esparsa em cômodos, arredores
em meu dia ensolarado, úmido, iluminado, ofegante na subida do sol e da ladeira, rarefeito no raso
emergido da sombra, carregando uma imponderável maresia, além do rangido na porta, e algum trinado alheio
entre mudanças imperceptíveis, entre os sentidos e o sentido, entre meu olho e o que vejo, entre minha orelha e o que escuto, entre a sede e a água, embaixo da saia, na flexão dos joelhos, no giro do pulso e dos tornozelos, nos comichões
a vida esguia, de esguelha, a monja obscena que veste minhas roupas, minha noite, meus ossos e se curva sobre rolos de papéis amarrados com a fita acetinada do silêncio 
 

a terceira morte de m.m.

 
1.
sempre disse, este é um lugar onde me dão tanta grana por um beijo e uma moeda pela alma
e tudo bem, podem me esbofetear, não será a primeira ou a última vez
recusei mais de um casamento por dinheiro
mas venho vendendo todos os meus sorrisos, mesmo os que ainda não tive, ondulações de carne, apertos de músculos
e deixo me enfiarem a mão sob a saia sem nenhum sobressalto de voz
olha, eu dou para qualquer um que queira me pagar uma semana de aluguel ou acene com letreiros luminosos
ainda que levantem dúvidas sobre meu talento
se não passo de uma criança estúpida, manipulada por todo tipo sem escrúpulos
ou se de fato há algo de inigualável em minha presença, além é claro do volume da bunda e da angulação dos meus peitos
mas sobre isso, carrego o argumento imbatível: para mim, tudo é possível
 
2.
somente a luz se fixa nas curvas do meu rosto
o amarelo sobreposto à raiz escura dos cabelos e uma calma recém disposta entre o olhar e o aceno
nenhuma sombra de vômitos, barbitúricos, estimulantes, tranquilizantes, moderadores de apetite, de manchas nos dedos e nos dentes
nenhum resíduo de insônia, roer de unhas, incontinência urinária, de marcas deixadas pelo peso anônimo dos tantos corpos sobre o meu
nem lembrança de nomes, pessoas, clínicas, becos e bancos traseiros de automóveis
ou de quando acordei assustada em cama desconhecida
agora em meu corpo não cabe mais nada
a não ser a pele clara, um arrepio de vento, o discreto e proposital franzir de cenho
e o toque final, incessante indagação
até quando
 
3.
reconheço a crueza no meu corpo desbotado
agora que a vida me abandona sem barulho
jornalistas e outros patifes vão dizer amanhã como foi trágica a minha morte e todo esse blablablá
mal sabem eles
essa é a mais fácil das aventuras
duro mesmo foi acordar e continuar vivendo, mal sabem eles
não veem nenhuma virtude na ignorância
nem intensidade nas mentiras que contei
ao diabo com as homenagens, missas e rezas, enfiem no rabo as retrospectivas, as tiragens especiais, os selos comemorativos
sempre deixei claro, prefiro o assobio do servente de pedreiro quando atravesso a rua de malha colada e sem calcinha
gostei mais dos caras comuns, rudes e até meio violentos
no fim das contas, sempre acabava dormindo sozinha, envolta em aroma e pesadelo
aprendo, diante do corpo esvaziado de toda dor
trágico foi ter tão cedo vislumbrado um caminho e tê-lo seguido apesar de tudo
mal sabem eles como foi tranquila esta última decisão, tomada no final da tarde, ao sair do banho
senti que a coisa toda já dera o que tinha de dar
assim, depois de telefonemas e anotações inúteis em meu diário
sentei-me na beirada da cama e meio sem querer, soltei a terrível gargalhada
 

gardênias para Eleanora

 
1. (aos 10 anos, internada numa instituição católica)
mama
pergunto-me o quanto mais posso suportar se já não aguento o peso das pernas
perguntei aos joelhos ralados, ao pulso dolorido, ao ouvido, aos olhos fechados
em todo lugar eram quatro paredes e eu sou apenas um fiapo de voz, um nome branco
não sei quantas vezes tive de morrer, ainda
agora eu nunca mais quis um homem sobre mim, agora eu nunca mais sangrarei
eu já sei saber entrar pela porta dos fundos, sentar-me nos bancos de trás
nunca falava mais alto do que ninguém
aprendi poder lavar calçadas e banheiros, e com esses noventa centavos eu não posso mais apanhar
a puta lá da esquina me deixa ouvir a vitrola com o Louis Armstrong se eu cuidar da calcinha dela
 
2. (aos 14 anos, condenada na Ilha do Bem-Estar)
mama
sempre tive um fim
e meu fim começava há tanto tempo quando eu ainda nem era pequena
comecei em você, no seu prazer proibido que me concebia
hoje, calo-me há mais de um ano, repousei meu diafragma longe dos salões enfumaçados
fumar, quando mereci, beber, quando me esquecem escondida
todo o tempo que eles trazem a minha voz aqui, ela ficou girando distante da minha contenção
mesmo assim rio, rio muito, mesmo até quando souber que os cachorros latem é para mim
logo vou estar inalcançável, de volta ao murmúrio que se segue ao estalar batido dos meus sapatos
logo, não sei se um dia saí daqui, quando encher uma casa com 125 amigos e umas latas de feijão vermelho
minha pena, cumprir o vestido seda e os sapatos agulha, pagarei como souber 
 
3. (na cama do hospital, pouco antes de morrer)
mama
a vida passou num mar de rosas, já disse, pode ler isso nos meus olhos
pode ouvir no rádio, ela canta que nasceu para ser beijada, mas achei que ainda nem nasci
de mão beijada, nada, nem agulha nem fagulha
as enfermeiras, eu moribunda de braço atado, de caras me olhando lá, de sobretudo denunciado que é cana
não era só de porrada, de picada, de cagadas e fodidas, fui também aquela viagem de ônibus
e quando ouvi o balançar dos corpos pendurados nas cruzes, toda essa gente atrás de mim
deixa me trazerem aqui sempre, espiar em todos os meus buracos
vasculharam meu sangue e minha doença sempre ficou alheia
eu sei bem quando e onde me pintar de vermelho
interessa pouco quem vai pagar a conta, essa chaga não pode crescer fora de mim

 

Compartilhamentos [© Caio Meira]
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