En omfavnelse

Meu poema "um abraço" traduzido para o dinamarquês por Tiago Gonçalves e Charlotte Kaare-Andersen, a quem agradeço de coração.

En omfavnelse

da vi mødtes og omfavnede hinanden i blot
et par sekunder, da jeg lagde mit hoved ved din side
og da din torso for et øjeblik klyngede sig
til min torso, med min hånd hvilende på din
ryg, på din hud, ved din rygrad
det der som regel defineres som en omfavnelse
som en hilsen, som to mennesker der ikke har set hinanden
i nogen tid, og som for en stund omfavner hinanden
for at fejre glæden ved mødet, anerkendelsen
i ansigtet, i kroppen, det gensidige liv, denne omfavnelse
fejres, ved en lille intimitet, et møde, selv om
for et kort øjeblik, et kort tidslaps, to
eller tre sekunder, lidt mere eller mindre end
dette, denne omfavnelse der involverer min torso mod din torso, hvorved
din krop blomstrer, hvorfra dine lemmer udspringer
og hvor væsker cirkulerer og elektriske spændinger i
bittesmå pulserende stød, der giver integritet til
din krop, som får din krop holde sig stående,
foran mig, kommanderede dine arme til at sammenflette sig
i mine i denne konfiguration som karakteriserer en omfavnelse, dennee
og enhver anden, denne omfavnelse hvor vores kroppe mødtes
og i et par simpele sekunder føles under min hånd
din ryg, din rygrad og dine ribben under mine fingre,
hvor jeg følte eller mærkede intuitivt dit hjerte bankende derinde
kommanderende med maskineriet i din krop, puffende
til dit liv, tanker, drømme, erindringer, at fortsætte
i dagen, i tiden, under min hånd liggende fladt på
din ryg, under forsigtigt tryk (eller dedikeret) af
mine fingre, stilladset der beskytter dit liv,
det liv, der cirkulerer i din torso, der for et sølle øjeblik
er limet til min torso, da din barm
blev limet til mit bryst, når dit hjerte
nærmede sig min ved mit, i den tid en omfavnelse
normalt varer, varigheden af armene og torsoen,
længden af kroppen, af hånden fladt mod din ryg,
i en hverken enorm eller lillebitte stund, der varede
denne omfavnelse, der omfavnede liv, drømmene,
tankerne, de sammenflettede smil, som armene,
som de tætte torsoer, unisont, hvem ved
en umålelig mængde tid, ville jeg sige, men
effektivt mærket af kroppen og fremsendt via
elektriske og kemiske midler til det sted, der giver
genereringen af disse ord, hvor ideer blomstrer
at ophobes og dvæler i min krop, som omfavner
mit liv fra denne omfavnelse af som lidt
eller næsten intet varede i forhold til kronologisk tid,
men som insisterer på, at selv nu og her, når det invaderer mig
måden hvorpå din torso var limet til min den dag vi
fandt hinanden

[Jeg elskede det! Mange, mange tak Tiago og Charlotte!!!]

evidências

evidências

que peso pode ter uma palavra, qualquer
palavra, dentro de um poema, e que peso
pode ter essa palavra numa matéria jornalística,
ou econômica, ou política, numa revista
semanal norte-americana pedindo ou
sugerindo a renúncia da presidenta, fora,
fora, fim, término, pois supostamente
devemos acreditar em jornalistas e em
economistas, e em jornalistas-economistas,
em juízes e procuradores, em advogados,
em banqueiros, nos donos da mídia
do país, das revistas e canais de tv,
divididos, mas juntos, suas palavras propõem
nova divisão, novo arranjo produtivo,
nova repartição dos bens públicos, pois
dividimos, ao que parece, para
escolher de que lado ficamos, e também
para escolher de que lado não queremos
ficar, aplicando assim o método da
divisão, dividimos a cor da pele, a cor
da camisa, qual o dia da passeata que
devemos ir, o lado da cama que devemos
dormir, se mijamos em pé ou sentado,
dividimos para escolher a melhor porção,
a melhor fatia, fatiamos, retalhamos
para apontar o filho bastardo, o que
não tem direito a ter relógio de ouro,
o que não pode ter casa de praia, quem
pode e quem não pode dar palestra
de duzentos mil reais, quem pode
perambular bêbado pelo leblon, quem
pode e quem não pode cheirar cocaína,
você até pode tirar um repórter de dentro
do estadão, mas não pode tirar o estadão
de dentro do repórter, quem é pobre
deve manter a alma de pobre e morar em
maricá, quem é filho de general pode
ter apartamento em paris, pode ter
amante teúda e manteúda em paris, pode
ter filha recebendo salário em gabinete
de deputado sem ir trabalhar, e se
você for jornalista de o globo, do estadão, da
folha ou de um dos outros pasquins inomináveis,
você terá de retirar alguns nomes da matéria,
"se quiser eu tiro", você disse, e talvez
você tenha recebido um email vindo de
cima dizendo o que você pode e o que
não pode falar, que listas e que falas
você pode e mesmo deve dramatizar
na edição da noite, e para continuar do
lado certo da divisão você terá de
aprender como e quando se escandalizar,
você não poderá se escandalizar com
tudo, mas só com certas coisas, e então
nós, por nossa vez, aprendemos a
identificar essas evidências quando você
compartilha, prefere compartilhar, a matéria
da the economist e não a da bbc, e
quando você examinar crise na universidade
pública será, deverá ser, sob a ótica de
um empresário, de um redator, de uma chefia, e
assim nos dividimos e nos pulverizamos
e nos chocamos com coisas tão diversas,
e então eu me lembro quando você me disse
que a propriedade privada é a mola mestra
da sociedade, o direito à propriedade é
o fundamento das relações sociais, e eu
fiquei tão chocado com essa fala, com
essa divisão que se interpunha entre dois
amigos, e tantos posts dizem que não se
deve romper amizades em função de
divergências políticas, e eu até acredito
nisso, mas é tão difícil enxergá-lo de
onde estou, do outro lado desse abismo,
e as evidências são assim pistas que a
gente segue, como policiais e jornalistas
seguem pistas, nós também seguimos os
rastros dos jornalistas e dos policiais, e
dos juízes que também dividem, escolhem
lados, separam o joio do trigo, encontram
agulhas em palheiros, mas não veem as
raposas se aproximando do galinheiro

 

Um poema político

um poema político
(para Vitor Ferreira)

em tese, todo poema é político, ainda que hesite
eternamente entre som e sentido, como dizia
valéry, e que se construa com palavras e não com
ideias, como indicou mallarmé, mas a fala é em
si uma forma de política, e mesmo o primeiro
balbucio infantil pode ser, em certo sentido,
um primeiro passo para o político, para a
habitação da cidade, mas o poema não pode
escapar à política, a se posicionar politicamente,
a ser uma posição da cidade, a uma forma de
ver a cidade, uma forma de habitar a cidade,
mesmo que não traga mais do que rosas e
o azul do céu, mesmo que fale de insetos
ou gaviões, ou de urubus, ou de bem-te-vis, ou
de corujas, ou dos gritos dos bugios, ou da
sexualidade bonobos, um poema não deixa de ser
político mesmo sendo pornográfico, repleto
de cus, bucetas e caralhos, mesmo quando
seja apenas a descrição fotográfica de um instante,
de um casal, numa manhã chuvosa de domingo,
ambos vestidos com uma camiseta verde-e-amarela
do flamengo, uma camiseta comemorativa e não
a camiseta oficial do time, rubro-negra, uma
camiseta feita por marqueteiros, pela nike,
para ser ofertada a celebridades, para captar
recursos para o time, para dar determinada
identidade ao time, para que o time possa
vender bastante essa camiseta, não para que
essa camiseta represente as cores do time, mas
para que o time seja um produto vendável nas
lojas, nos shoppings centers, e esse casal, assim
vestido, possa descer numa manhã de domingo,
com seu cachorrinho, um lulu da pomerânia, ou
spitz alemão anão, e seus dois filhos fofos num
carrinho de bebês para gêmeos, empurrado por
uma babá negra, devidamente uniformizada, ela
também, devidamente paga, devidamente posta
em seu lugar, já que o chefe de família, o marido
vestido com a camiseta que deveria ser rubro-negra,
mas que foi produzida pela nike nas cores verde-e-
amarela, esse marido é também vice-presidente
de finanças desse time popular, o flamengo,
além de empregar centenas de pessoas em
seu trabalho, além assinar a carteira de todos
os seus funcionários, exemplarmente, segundo
ele próprio, então essa imagem é a construção
de uma identidade política, é uma forma, exemplar,
segundo o próprio marido, de habitar a cidade
do rio de janeiro, ele de mãos dadas com a
esposa, puxando um lulu da pomerânia, pagando
seus impostos corretamente, vestindo seu tênis
nike, sua camiseta nike verde-e-amarela com
o brasão do flamengo, descendo numa manhã
de domingo para protestar contra a corrupção,
já que ele paga seus impostos, e paga a babá negra
devidamente uniformizada que empurra o carrinho
de bebês, mas que está livre para pedir demissão,
segundo ele, ela está livre nessa manhã de domingo,
em meio ao protesto no qual as demais pessoas
que ali protestam se aproveitam para beber
uma tacinha de champagne, ou para encenar
o enforcamento de um sujeito branco, mas com
o black-face, vestido com um saco de lixo, com uma
corda em torno do pescoço e sendo empunhado
como um estandarte por um outro sujeito, risonho,
vestido com uma camiseta também da nike, mas dessa
vez da cbf, e também enrolado numa bandeira
do brasil, ordem e progresso, podemos ler apesar
de as letras estarem invertidas, esse enforcamento
de um negro indigente então funcionando como
um estandarte, como um abre-alas, uma bandeira
simbólica do protesto para alcançar um país melhor,
no qual os empresários possam continuar a passear
e protestar numa manhã de domingo, de mãos dadas
com a esposa, passeando o lulu da pomerânia e tendo
seus filhos fofos conduzidos por uma babá negra
devidamente paga e uniformizada, livre para deixar
o emprego, livre para estar em meio a esse protesto
com taças de champagne e enforcamento de negros
indigentes, livre, livre, como o marido é livre para
se pronunciar posteriormente, já em seu apartamento,
informando ao mundo que ela é uma funcionária
livre para deixar o emprego, que ele ganha honestamente
a vida, que paga seus impostos e, por isso, é
um cidadão exemplar, e que ela, a babá da foto,
não a outra babá, ou as outras babás, ela trabalha
apenas no fim-de-semana, e não a babá ou as babás
que trabalham durante a semana, e que devem ser
também devidamente pagas, mas que por alguma
razão não puderam, ela ou elas, comparecer
ao protesto, por estarem livres para ficar em casa,
assim como ele é livre para se defender em seu
perfil do facebook, explicando como é honesto
e cumpridor dos seus deveres, repudiando o
ódio e dizendo que está feliz em poder gerar
empregos, entre estes certamente o da babá
negra que ele levou para o protesto, para que
ele pudesse estar mais confortável para dar a
mão à sua esposa e passear o lulu da pomerânia
sem ter de empurrar seus filhos fofos no
carrinho de bebê para gêmeos, que ele está
feliz por participar da construção de um país
melhor, seguindo o lema de nossa bandeira,
ordem e progresso, feliz por trazer a esperança
de um novo país, e por isso ele se defende
no facebook, curiosamente iniciando o texto
no qual se defende, no qual defende o fato de ter
levado uma babá negra para o protesto, para
não ter de empurrar o carrinho de gêmeos com
seus filhos fofos, e assim poder passear o lulu
da pomerânia e dar a mão à sua esposa, curiosamente
ele inicia seu texto com a expressão sí passarán!,
sim passarão!, invertendo o lema da luta contra
o fascismo, invertendo o lema antifascista, os
fascistas não passarão, mas para o empresário
sim, passarão, o protesto passará e que nesse país
que ele está ajudando a construir se possa
descer para a rua numa manhã de domingo
vestindo a camisa da nike e seu tênis nike,
de mãos dadas com a esposa, passeando seu
lulu da pomerânia, com os filhos fofos sendo
empurrados num carrinho de bebê para gêmeos
por uma babá negra devidamente uniformizada

 

© Caio Meira

 

Essa gente que desce hoje para a rua

essa gente que desce hoje para a rua

é possível encontrar entre essa gente que desce hoje
para a rua, como desceram por 49 vezes de março
a junho de 64, como desceram empunhando o
estandarte carmim com o leão dourado para
protestar contra o divórcio, contra a reforma
agrária, contra o aborto, contra a ameaça do
comunismo, contra a corrupção dos valores da
família e da propriedade, em defesa da família, em
defesa da propriedade

como nos anos 50 desceram os que achavam que
o getúlio não podia ser candidato, se candidato não
podia ser eleito, se eleito não podia ser empossado,
se empossado era preciso ser impedido de governar

entre essa gente é possível encontrar aqueles que não
são eles mesmo corruptos, aqueles que não pagam
propina, que não fraudam o imposto de renda, que
não estacionam em fila dupla, que não são
funcionários-fantasma, que não se beneficiam de
alguma forma de nepotismo

é possível encontrar entre eles os que não se incomodam
que porteiros e domésticas ascendam socialmente, os
que não se opõem a que gays, lésbicas, trans e inters
tenham direitos civis, os que não tenham obsessão
por armas de fogo

entre essa gente que desce para a rua hoje, nesse dia
chuvoso, podemos encontrar os que não tenham como
ídolos o steve Jobs, o bill gates ou o trump, os que não
tenham como paradigma o lobão e o roger, os que
não ignoram que as famílias marinho, frias, mesquita
e civita formam um consórcio criminoso, os que não se
miram no eike batista ou no lemann, os que não
acham que juízes são deuses, os que não tenham
como meta levar os filhos para passear na disney,
os que não se ressentem com o fato de que pobre
agora possa pegar avião

podemos encontrar entre essa gente os que não estão
com sangue nos olhos, os que não veem graça no
danilo gentille, os que não acham o luciano huck
um cara bacana, os que não repercutem nas redes
sociais os textos do constantino, do azevedo, do
mainardi, os que não são olavetes, os que não
compartilham vídeos e expressões do bolsonaro,
do malafaia, do feliciano, os que não publicam
na sua timeline a reportagem de 1975 do amaral
neto, o repórter, elogiando a ditadura militar

é possível encontrar aqueles que, em 1888, não
se oporiam ao fim da escravidão, e que hoje
não perpetuam a escravidão em suas formas
veladas e escancaradas, aqueles que se chocam
com o fato de a mulher do cunha não ter sido
ainda presa, que se chocam também que
o episódio do helicóptero do pó tenha
desaparecido da mídia sem sofrer qualquer
tipo de investigação

creio ser possível encontrar quem não esteja a
serviço direto ou indireto da bancada da bala,
da bancada do boi, da bancada da bíblia, quem
não queira entregar o controle do país ao
congresso mais conservador e hipócrita da
história do país

enfim, é possível encontrar entre essa gente os
que descem para a rua apenas por amor, não
por ódio, ou por revanchismo, ou por desconsiderar
as regras do jogo

mas é bom levar uma lanterna

 

não há mais poetas

não há mais poetas

 

não há um poeta no brasil, disse o cantor e
violonista, desgostoso com o país, afirmando
ter vergonha de estar aqui nesse momento, o
que meu amigo morto diria da presidenta, o que
meu amigo morto diria do lula, pergunta-se, não
há um poeta nesse momento, para esse momento
não há poetas vivos, não há, a poesia está
morta, o que o poeta morto diria disso
tudo, da corrupção, dos escândalos, não
há mais poetas no país, talvez tenham fugido,
talvez tenham sido expulsos da nossa
república, talvez até existam aqueles que
se autoproclamam poetas, mas não, não há,
não pode mais haver geração como aquela, na
qual os poetas se infiltravam pelo poder, nas
embaixadas, no funcionalismo público, o pelé
só é poeta quando se cala, os poetas só podem
ser poetas quando se calam, isso é uma
pergunta, só quando se calam, porque as
pessoas estão prontas para ir às ruas vestidas
com a camisa da cbf, para ver se descolam a
volta dos militares, dos anos de chumbo, e os
poetas não podem ter nada a dizer sobre
isso, talvez o cantor esteja apenas nostálgico do
seu amigo, as saudades o fariam sentir vergonha
de ser brasileiro, por isso ele diz que num país
como esse nada mais pode ser criado, nenhuma
nova bossa, e se pretensos poetas dizem coisas,
escrevem, publicam, enchem as prateleiras
de livros de pretensa poesia, não há mais, não
pode mais haver poesia para este momento, afinal
a poesia é aquilo que os homens mandam pras
mulheres, namoradas, mães, filhas, aquela coisa
bonitinha, no dia internacional da mulher, e fica
resolvido o problema da violência contra a mulher,
com posts e palavrinhas bonitinhas, cheias de
flores, viva a mulher, isso sim é coisa de poeta, então
ao contrário do que diz o cantor, somos todos
poetas, ou então ele, o cantor, está certo, não
há poetas hoje, eles não circulam mais pela
república em que vivemos, os sebos estão
cheios de livros de pretensa poesia, relegados
ao esquecimento, você diz, hoje, “ele é um
poeta” quando alguém diz alguma coisa
totalmente desconectada com aquilo que
chamam de realidade, coisas sem peso, sonhadoras
e bonitinhas, e quando o vice-presidente se revela
poeta, é aquela coisa constrangedora, afinal é isso
ser poeta, ser totalmente omisso, mas “num escrito
escrito pra mim”, no caso, pra ele, produzir um
“embarquei na tua nau”, no comments please,
então, retomando o enunciado do cantor, não há
um poeta sequer para esse momento de ódio, de
sangue nos olhos, ou talvez os poetas mais cedo
ou mais tarde venham dar sua visão desse momento, os
poetas que não existem, mas quem sabe talvez
nos rondem como espectros, já que expulsos,
ainda outra vez expulsos, postos para fora, não
há mais poetas, exceto, possivelmente, os
espectrais, assim, se não há mais poetas, pode
ser que a poesia continue a ser fantasmagórica, e
surja de surpresa, como fazem os fantasmas, seres
suprarreais, ou infrarreais, de fora, por isso o cantor
talvez não consiga vê-los, pois o espectro da
poesia vai sempre nos rondar, principalmente
quando não esperarmos mais por eles

 

Caio Meira

Resenha para O Passeador, de Luciana Hidalgo

Terminei há alguns dias, com enorme atraso, a leitura de O Passeador, da Luciana Hidalgo.

Fui um dos primeiros a comprar o livro, em sua versão digital. O atraso gigantesco, de cerca de 4 anos, se deu sobretudo porque nos últimos tempos andei tomado e encantado por tudo o que gira em torno da fotografia, da imagem. Nesse período, negligenciei não apenas as minhas leituras (incluindo aí os livros lançados por amigos), mas também minha própria escrita. Esse sentimento de dívida se agravava para mim pelo fato de eu e Luciana Hidalgo termos ganhado, no mesmo ano, o prêmio a Bolsa Funarte para Criação Literária, em 2011, Luciana pelo Passeador (que também foi finalista do Jabuti de 2012) e eu pelo Romance, que publiquei em 2013.

Mas estou de volta! Então, aqui vão minhas impressões de O Passeador.

Mademoiselle Hidalgo, em seu primeiro romance, leva para o registro da ficção a matéria que por anos tratou como pesquisadora, a literatura urgente (e a vida) de Lima Barreto. Para qualquer criador, saber muito sobre alguma coisa apode apresentar toda uma série de riscos. Um deles, por exemplo, seria o de encontrar um espaço para dar à imaginação, à criação, em especial considerando que o personagem ficcional de fato existiu, publicou livros, foi alvo de biografias e estudos. Se os fatos mais prementes da vida de Lima Barreto são conhecidos, tais como o alcoolismo, a loucura e o preconceito de que foi vítima, qual é o espaço possível de ficcionalização? Aqui, Luciana diz a que veio. O Passeador não busca, a meu ver, ao contrário que poderia parecer, produzir fatos ficcionais explicativos da vida de Lima, um completar de lacunas ou o preenchimento de vazios subjetivos que viriam dar de seus motivos maiores. Trata-se, bem mais, da dedicada reconstrução de uma época, de uma sociedade e de uma cultura, tal como configuradas na cidade do Rio de Janeiro no início do séc. XX. A escrita de Luciana não segue em linha reta, acrescentando fatos aos fatos, sejam estes ou aqueles imaginários ou reais. Como acontece com um passeador real, ela prefere construir com delicada firmeza a atmosfera de um tempo, seus personagens, suas ruas, um momento histórico preciso da vida do país.

Nesse sentido, os capítulos, mais do que se sucederem uns aos outros, vão se posicionando espacialmente, em favor da recriação paulatina do universo em que passeou, viveu, amou e sofreu não apenas Lima, mas muitos dos seus contemporâneos: Sofia, uma co-protagonista, mas também um tipo de alterego de Lima — podendo ser, creio, uma maneira bastante sutil de a autora colocar seu pé naquela época; um livreiro mal-humorado e seu Sebo — em torno do qual gravitam o mundo e o submundo cultural da cidade; uma cafetina exótica, retrato e ao mesmo tempo espelho das contradições da cultura brasileira; além destes, o livro traz outras encarnações da vida política, literária e marginal do Rio de Janeiro. Assim procedendo, ao acompanhar a cuidadosa arquitetura projetada por Luciana, chegamos ao 11º e último capítulo, não para com ela finalizar um relato, mas para adentrar seu núcleo, o cerne duro da urgência literária frequentada por Lima. É com certeza o mais belo momento de um belo livro. Aprendemos que a paciência, além de um método, é também um estilo. A riqueza de detalhes, a pesquisa rigorosa de época e a elegância da escrita garantem ao leitor uma viagem no tempo. Luciana Hidalgo começou com o pé direito o passeio no mundo do romance. Chapeau!

Hidalgo, Luciana. Rio de Janeiro: Rocco, 2011

O passeador
Clique aqui para compar o livro

Versão em língua francesa para poema O abraço

Com a ajuda do Marcelo Jacques de Moras, fiz uma primeira versão para o francês do meu poema "um abraço", do livro Romance (p. 18-19):

 

un enlacement

lorsque nous nous sommes rencontrés et nous sommes
serrés dans les bras l’un de l’autre pour quelques
secondes, quand j’ai mis ma tête sur ton
épaule et ton torse pour quelques instants s’est collé
au mien, ma main posée sur ton dos, sur
ta peau, sur ta colonne vertébrale, ce qu’on définit
d’habitude comme un enlacement ou une accolade de
salut, par deux personnes qui ne se sont pas vues depuis
quelque temps, et pendant un certain temps s’embrassent
pour célébrer la joie de la rencontre, la reconnaissance
du visage, du corps, de la vie commune, cet enlacement
fête l'intimité d’une réunion, même
furtive, pour une courte période de temps, deux
ou trois secondes, un peu plus ou un peu
moins, cet enlacement de ta poitrine dans la mienne,  d’où
jaillit ton corps, où naissent tes membres et par où
circulent des fluides et des tensions électriques dans des
minuscules éclats, afin de régler le tonus qui donne de l'intégrité
à ton corps, qui fait que ton corps est ici debout,
devant moi, commandant tes bras à enlacer les
miens dans cette configuration typique de l’enlacement, de celui-ci
et de tous les autres, enlacement où nos corps se touchent
et où pour des infimes instants j’ai ressenti sous ma main
ton dos, ta colonne vertébrale et tes côtes sous mes doigts,
où j’ai ressenti ou pressenti que ton cœur battait là dedans,
et commandait la machinerie de ton corps et donnait de l’élan
à ta vie, à tes pensées, à tes rêves, à tes souvenirs, à la poursuite
du jour, du temps, sous ma main à plat sur
ton dos, sous une pression très délicate (ou dévouée) de
mes doigts sur la charpente qui protège ta vie,
la vie qui circule dans ta poitrine, pour des infimes instants
collée à mon corps, quand tes seins se sont
collés à mos torse, quand ton cœur s’est
rapproché du mien par le temps que dure d’habitude
l’enlacement, la durée des bras et du torse,
la durée du corps, de la main à plat sur ton dos,
pour le temps ni énorme ni minuscule qui s’est prolongé
dans cet enlacement où se sont embrassés la vie, les rêves,
les pensées, les sourires entrelacés, tout comme les bras,
tout comme les torses rapprochés, unis, peut-être, dans la durée
d’un intervalle incommensurable de temps, je dirais, mais
effectivement ressenti par le corps et transmis par des moyens
électriques et chimiques à l'endroit où se produit
la génération de ces mots, où naissent des idées
qui se gardent et s'attardent dans mon corps, qui s’enlacent
dans ma vie à partir de cet embrassement qui n’a duré que
très peu ou presque rien par rapport au temps chronologique,
mais qui insiste toujours en moi, et qui m’envahit
avec la forme de ton torse collé au mien dans ce jour où nous
nous sommes rencontrés

© Caio Meira [Romance, 2013, p. 18-19].
Versão de Caio Meira e Marcelo Jacques de Moraes